nós estávamos sentados em uma mesa de bar. daquelas para 4 pessoas porque ele gostava de espaço. espalhava todos os seus objetos pessoais e ficava reorganizando-os durante a noite enquanto tecia suas explanações complexas. aquele dia algo parecia diferente. ele estava melancólico. não que ele já não fosse assim naturalmente, mas dessa vez havia algo em seu olhar. em uma questão de uma hora de conversa mesmo sem ele ter dito uma única palavra sobre isso eu já poderia dizer exatamente o que estava acontecendo e a fonte daquele olhar. ele estava cansado. aquele cansaço que vai chegando de mansinho e invade a alma. não era físico. ele parecia que estava desistindo de lutar. ele estava prestes a entregar os pontos.
eu não lembro quanto eu bebi aquele dia e nem como eu consegui chegar até a minha casa, mas eu não esqueço nenhuma das palavras que ele me disse. era uma pessoa que quando realmente queria dizer alguma coisa, conseguia fazer com que todos prestassem atenção. mas precisava ser algo realmente importante e naquela noite parecia que todas as palavras que saíam da boca dele tinham uma importância que chegava a pesar. eu sentia minha cabeça girar e não pelo álcool, mas pelas coisas que eu estava escutando. ele estava realmente desistindo daquilo tudo.
planejamos viagens e fugas cinematográficas do país. assaltos a bancos para resolver problemas financeiros. irmos a um parque de diversões e nos reunir todas as semanas. planejamos tantas coisas quanto foram possíveis para que o foco mudasse completamente de lugar e a luz dos spots fossem direcionadas a coisas que trouxessem soluções, prazeres ou felicidades instantâneas. no final das contas sabíamos que nada daquilo sairia daquela mesa. nunca assaltaríamos um banco ou iríamos para nova iorque. ambos sabíamos que a realidade nos pegaria de uma forma louca no dia seguinte.
faz mais ou menos um ano que não nos vemos. às vezes tenho notícias dele por intermédio de alguém que chega feliz para contar. itália. esse foi o destino que ele escolheu. sem falar com ninguém. sem pensar. um passaporte e uma mochila e recebi um cartão postal de milão. ele havia de fato desistido. talvez ele tenha criado a coragem de fazer tudo aquilo que nós havíamos falado naquela mesa. talvez ele tenha assaltado um banco e ido ao parque de diversões. talvez ele tenha vivido muito mais do que eu. ou talvez menos. depois daquele cartão postal não tivemos mais contato. já sabíamos desde o princípio que aquilo iria acontecer. e hoje eu me pergunto: qual de nós dois, realmente desistiu?
escrito originalmente em 5/3/2010.
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