descartável.

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Um dia você vai perceber que percebeu tarde.

—  Caio Fernando Abreu.


       Eu não consigo me conformar com esse vazio e devagar eu vou me preenchendo de mim mesmo e sendo feliz assim. Coloco músicas despretensiosas nos meus fones de ouvido e vou me deixando embalar por letras que traduzem meus sentimentos melhor do que qualquer palavra que eu possa escrever, enquanto outro cigarro me faz uma companhia silenciosa. E vou me transformando em fumaça na tua vida e saindo pelas entrelinhas de todas as fotos que você não compartilhou, de todos os momentos que você não quis dividir comigo e de todas as mensagens que, de tão vagas, eu fiquei sem resposta, ainda que te respondendo algo. Não vou deixar meu corpo boiar na superfície das tuas ações ensaiadas e vou mergulhar de cabeça em mim mesmo, fechando-me cada vez mais na procura de ser aquilo que eu mesmo preciso. E te esquecendo aos poucos, do pouco que fizeste por mim, talvez você também me esqueça, até um próximo gole ou um próximo trago, ou até uma próxima vida. Em uma geração tão acostumada com o descartável, você vai virando aquela latinha que alguém passa e recolhe para reciclar, enquanto eu me reinvento e sigo na direção que você, veja só, esqueceu de olhar. E quando, finalmente, caso aconteça, você se vire, eu não estarei mais lá. Uma pena que você não me verá mais e as mensagens começarão a ficar, literalmente, sem resposta. Não por falta de educação não, apenas por falta de interesse. Assim como fumaça que vai com o vento e a areia que escapa pelos dedos, eu me fui. Fui me perder dentro de mim mesmo, mais uma vez, para depois me encontrar.

c.e.

ps: não, esse texto não é nada atual. obrigado.


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