
“Deus criou o cachorro para que os homens tivessem um exemplo prático de como se deve amar.” (Izaú Melo)
nós não iríamos crescer juntos, você era só mais um filhote desajeitado da minha primeira cachorra que se aventurou com o cão do vizinho no primeiro cio. marinheira de primeira viagem, não foi fácil ensiná-la a ser mãe e todas as responsabilidade que isso trazia, afinal de contas ela era quase um filhote. mas enquanto todos os outros brincavam e corriam alegres, você tinha um olhar meio triste, estava sempre cabisbaixa e isso começou a me preocupar. te apelidei de baby, era a baby da toya, porque eu não queria te dar um nome, a intenção não era ter mais um cachorro e te dando um nome o caminho era sem volta. daí comecei a investigar e você não parecia estar doente, acho que era só o teu jeito, meio acanhada, meio na sua, com aquela cara de dó. e você começou a atender pelo nome de baby. e também começou a distrair a toya, que na época ainda era quase uma filhote e destruía tudo por onde passava. isso foi um ponto positivo e todo mundo em casa começou achar que, talvez, fosse mesmo uma boa ficar com aquela bolinha de pêlos caramelos. e você ficou e foi ficando e era minha. eu era o teu pai e você era o meu amor.
foram 10 anos com você do meu lado e eu do teu. não importa o que acontecia. eu mudei de estado e você mudou comigo. você e a tua mãe, inseparáveis. e nunca vou esquecer a sua cara de feliz quando se viu em uma casa nova com um quintal imenso todinho teu, foi quando tirei essa foto aí. talvez tenha sido um dos momentos mais felizes da tua vida. assim como foi da minha. você rasgava o lixo eventualmente quando eu esquecia de levar até a lixeira no fim da rua. às vezes você fazia xixi na sala e depois ficava com uma cara de culpa por não ter segurado. eu tenho mil fotos e vídeos. milhares de memórias tuas e nossas. eu evitava ficar postando o tempo todo sobre você, primeiro porque você odiava ser filmada e segundo que as pessoas tinham mania de te julgar pelo teu peso. e eu que sempre te achei ansiosa, hoje eu sei que na verdade você tinha uma doença que ninguém sabia. e quando soubemos, não havia mais muito o que fazer, né? você rolava pra coçar as costas e eu ria. eu te escovava todos os dias e tirava um caminhão de pêlos mas nunca, nem por um segundo eu reclamei dos pêlos nas roupas ou no sofá. eu te mimei o tanto que eu pude. lembra quando vocês eram pequenas e iam comigo ao trabalho todos os dias? passavam o dia ao meu lado. você se divertia andando de carro, ainda que os vidros de trás não abrissem, mas você apoiava uma pata no meu ombro e ficava equilibrada entre o banco da frente e o meu, para colocar pelo menos o focinho pra fora. daí o vento incomodava e você se esparramava no banco traseiro. são tantas as histórias que seria mais fácil eu escrever um livro do que um post, e olha, você valeria cada página de um livro. foi a cachorra mais companheira que eu tive, mais amável, mesmo você me agredindo fisicamente quando queria comer ou que eu levantasse da cama às 15h da tarde em um domingo. você era meio impaciente, eu sei, eu também sou, afinal eu que te criei, né? mas eu cuidei. cuidei de você como uma filha, porque é o que você foi pra mim. e sempre vai ser. mas toda vida tem um prazo né? e teu foi curtinho, pra mim. 10 anos foram pouco com tanto amor que você me deu e acho que, honestamente, eu nem merecia tanto. você adoeceu rápido, nem deu trabalho, só a preocupação de querer te ver melhor, te ver bem e feliz de novo, mas não aconteceu, era a tua hora e eu preciso aceitar e ficar em paz com isso. mas espero que você seja recebida com braços abertos e muitos biscoitinhos quando chegar do outro lado. ah, e quando eu for também, pode me lamber bastante e me dar aqueles banhos que você insistia em me dar com essa língua enorme e babona. eu reclamava às vezes, mas baby, eu confesso, eu vou sentir falta todos os dias. obrigado por cada segundo que você passou do meu lado, você foi a melhor cachorra que eu poderia imaginar ter tido. obrigado, obrigado e obrigado! eu te amo meu amor, não esquece do papai que eu nunca vou te esquecer.
c.e.
ps: esse texto foi escrito e lido pra baby um pouco antes dela partir.
Deixe um comentário