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no começo era algo distante. lá na china, ninguém nem prestava muito a atenção. mas a coisa foi crescendo, cidades começaram a ser isoladas. mas ainda era tão longe… uma província que ninguém saberia apontar em um mapa.

mas os aviões foram saindo do chão. as pessoas se movimentando. a vida seguia normal. ele também. e alguns casos isolados começaram a aparecer em outros lugares. outros países. mas ninguém ainda prestava muito a atenção. ou se preocupava. a china também, por ser uma país fechado, divulgava poucas informações. ele era novo. ninguém ainda o conhecia bem. nem sabia do que ele era capaz. os sintomas nem eram uma grande novidade, parecia uma gripe. e parecia que só morriam aqueles que já eram bem debilitados. quem se importa com essas pessoas? era tão distante.

o tempo foi passando e as pessoas, que sempre foram números, continuaram a ser. ainda era algo distante… e ninguém ainda se importava muito. ele era um inimigo invisível. seja pelo tamanho microscópico ou pela cegueira coletiva dominada pelo egoísmo.

mas ele é esperto. gosta de viajar. e então a europa começou a vê-lo. mas ainda era algo isolado. um ou outro que haviam retornado da china. quem se importa com os chineses? e a vida continuou. os números continuaram. e ainda era tão distante… e ninguém ainda se importava. mas cada vez mais ele ocupava o espaço das notícias. virava uma hashtag aqui ou ali. mas a vida não pode parar, não é mesmo?

e então ele começou a se tornar mais popular. reunia a galera. passava de um pro outro. e então começou a haver um contágio direto. agora não era mais o chinês viajando. era um vizinho, um amigo, um casamento. e ele continuou viajando. ele sempre gostou de aviões.

alguns países começaram a decretar emergência. conforme a coisa saía da china, mais informações eram colhidas sobre ele. os cientistas começaram a estudar mais a fundo. e aqui no brasil? ah, era algo tão distante, agora estava lá na itália. quem se importa? as pessoas ainda eram números. o governo tinha mais com o que se preocupar. o mundo tinha mais com o que se preocupar.

ele foi crescendo. alimentado pela superficialidade e pelo capitalismo do exagero. a cada dia comçavam a aparecer um ou outro rosto jovem, saudável, que havia passado por ele e não havia sobrevivido. mas isso era longe, quem poderia se importar? e as pessoas continuavam a viajar. a ir e vir. os governos? eles tinham mais com o que se preocupar. como as cias aéreas sobreviveriam? não dava pra simplesmente parar tudo.

personalidades começaram a ser garotos propaganda dele. mas tão distantes, não é mesmo? a gente via nos noticiários cada vez mais. alguns países já começavam a se isolar. se fechar dentro deles mesmos. e por aqui a vida seguia normal. os aviões continuavam a subir e descer. as pessoas seguiam a vida normal. afinal de contas nada podia parar, né?

mas alguns países pararam. totalmente. e mesmo assim ele não parecia dar um descanso. entrava em casa sem nem avisar. o egoísmo ainda era o melhor amigo dele. mas naqueles locais onde tudo parecia se fechar mais, a coisa dava sinais de que poderia melhorar mais rápido. os países que resolveram ignorar isso e seguir a vida, que afinal não pode parar, não é mesmo? começaram a pagar um preço alto. mas a gente ainda assistia como algo distante.

então ele chegou. ainda um pouco tímido. foi convidade a uma festa de casamento, veio com alguns pessoas que retornavam de viagens. era algo ainda isolado. permanecia uma realidade distante. mas ele começou a ter nomes. claro, ele não estava na periferia, ele estava em um casamento de luxo, acompanhando influencers. e por isso era uma realidade distante das pessoas “comuns” e ninguém se importava muito. afinal de contas os números aumentavam, talvez tivessem alguns nomes mas ninguém morria. era uma “histeria, uma gripezinha”, quem poderia se importar com isso?

de repente algumas pessoas começaram a alertar. começaram a ver que o que acontecia lá fora, tão distante, poderia acontecer aqui. mas o brasil não podia parar então quem se importaria com isso? e a vida foi seguindo normal. a gente assistia ele passar na tv, do sofá. ainda estava um pouco longe. não era fácil alcançá-lo.

mas de repente ele foi se tornando um gigante. os números eram cada vez maiores até que um dia, ele começou a deixar de ter números. ele passou a ter nomes. e enquanto a ignorância era abraçada com fervor por aqueles que acham que os próprios interesses superam o coletivo, enquanto eles achavam que nada poderia acontecer, ele começou a se achegar.

e ele foi chegando até ser o pai de uma amiga, um colega jovem e saudável do curso de teatro. ele foi ficando cada vez mais chegado. e as pessoas começaram a ficar em casa. com medo. mas só alguns, afinal de contas os saudáveis, os jovens, não deveriam se preocupar. ou será que deviam? para a maioria ele ainda era só um número.

e cada vez ele foi ficando mais próximo. agora ele tem nome. ele tem sobrenome. ele tem uma foto, uma amizade em uma rede social. e muitos ainda não se importam. talvez ainda não o tenham conhecido tão de perto. ainda visitam os pais idosos porque afinal de contas, eles sentem falta, sentem saudade.

hoje, infelizmente, para mim, ele já não é mais um número. ele, um tipo novo de coronavírus, chamado de covid-19 ou sars-cov-2 tá aqui. do lado. em volta. ele já não é mais um nome escrito em uma tubo de ensaio. ele não é mais tão invisível. mas para muitos nas ruas ele ainda é só um número, uma sigla. mas pra mim ele tem nome, rosto, história. e poderia ter sido evitado. se toda essa ignorância não tivesse tomado conta do poder, da vida, da economia. vida? ficou em segundo plano. afinal de contas o brasil não pode parar, não é mesmo?

e a cada vez que alguém sai de casa para visitar os pais, para ir comprar uma roupa, para encontrar os amigos, ele vai chegando mais perto. e o isolamento social que fomos obrigados a ter para evitar que ele entrasse em casa, vai se tornando uma realidade cada vez maior, vai crescendo e se tornando algo que ninguém mais sabe quanto tempo vai durar, porque cada vez que uma pessoa é irresponsável com as outras, com os pais, com a família, com essa p*rra de país que vai desmoronando na frente dos nossos olhos, os “números” crescem e vamos sendo obrigados e ficar isolados cada vez mais.

a tua irresponsabilidade pode matar. os teus amigos, os teus pais… a tua ignorância pode matar os MEUS pais. e ele está matando o país enquanto há pessoas preocupadas com coisas tão efêmeras que nem se deram conta ainda de que só os vivos compram, gastam, passeiam, VIVEM. infelizmente o aprendizado vem pelo amor ou pela dor. mas eu não quero mais precisar aprender pela dor por culpa do outro.

eu acreditei, fielmente, que no começo disso tudo, quando fomos todos obrigados a entrar em quarentena pela primeira vez na vida de pelo menos 98% da população, as pessoas aprenderiam um pouco. e não estou falando dessa produtividade que insistem que todos precisamos ter só por estarmos trancados em casa. mas acreditei que isso despertaria um senso coletivo maior. afinal de contas aqueles idosos, os doentes, também são pais de alguém, irmãos, amigos. eu achei que isso impulsionaria o mundo para um bem coletivo, mesmo em meio a tanta dor. mas isso não aconteceu.

ele e agora vocês, estão nos empurrando para o abismo. para a dor e o sofrimento inclusive daqueles que nem podem se debruçar sobre os próprios mortos para se despedir. estamos vendo pessoas saindo de casa e voltando em uma urna, em cinzas. e esse é o adeus.

então obrigado a você que tem cumprido o teu papel. obrigado a você que tem tido a empatia, o amor, a consciência. e que possamos ficar firmes e unidos mesmo reféns da ignorância daqueles que ainda acham que ele está longe. que ele é só um número. porque graças a eles, esses números hoje são nomes, são fotos, são pessoas. já não é mais uma gripezinha. uma histeria. é um medo real. uma tosse mortal.

e eu vou apontar o dedo sim e vou responsabilizar pessoalmente cada um de vocês, caso eu perca alguém que eu amo. mas nunca, jamais vou perder a fé e a esperança de que alguma coisa boa vai sair disso tudo. nada é por acaso para Deus. mas infelizmente depois de tantos anos de destruição, violência e dor, talvez tenha chegado a hora de aprender pela dor. mas o amor nunca vai nos abandonar. eu nunca vou te abandonar.

e enquanto muitos deles estão lá, dando a cara a tapa, dando a vida, literalmente por nós, sejamos mais responsáveis com as pessoas e com o mundo. sejamos empáticos. há tanta gente arriscando a própria vida para tentar salvar as nossas. e nós, o que estamos fazendo? tentando agir como se nada estivesse acontecendo?

vai passar. vai melhorar. vai acabar. mas enquanto isso não acontece, por favor, fique em casa. se proteja e proteja quem eu amo. e se não for capaz disso, então pelo menos proteja quem você ama. isso já vai fazer uma grande diferença na tua vida. e no mundo. o bater das asas de uma borboleta pode criar um furacão do outro lado do mundo? pois é, agora ficamos sabendo que pode. então por favor, me proteja. proteja os meus. e economia vai voltar. as vidas que estamos perdendo, não.

obrigado.

enrico.


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