o lado escuro da alma.

 

a dor estava ficando insuportável. fiquei durante dois dias preso dentro do meu quarto. pela primeira vez na minha vida eu desliguei meu celular porque eu não conseguia mais falar com as pessoas. eu não queria desabafar com ninguém. não queria falar. eu havia entrado no quarto escuro, o dark place da alma. e não tinha mais coragem de sair. de gota em gota o copo transbordou. tudo o que eu tinha tentado até ali, havia falhado. era hora de encarar que eu não conseguiria ser a pessoa que ele esperava que eu fosse. e eu juro que eu tentei. tentei até doer demais. outras pessoas, outros corpos só me faziam querer cada vez mais voltar. nada era o bastante. nada conseguia me distrair do sorriso inebriante, e da vontade de toca-lo com meu corpo e minha alma. eu já havia doado mais do que eu tinha. era o limite. o meu limite. e nada havia sido o suficiente pra ele. 

 
“When did we lose our way?
Easier to let it go
So many can’t tell anybody
Harder to let you know
Call me when you’ve made up your mind but you won’t
Caught up in the way that you played my heart
Only love could ever hit this hard”
 
eu fiquei em vão tentando puxar um ar que não vinha. e quanto mais eu tentava mais sufocado eu ficava. meu coração acelerava, meu corpo tremia. uma febre irracional tomava conta do meu corpo. eu levantei, resolvi encarar de uma vez e despejar tudo o que a minha garganta estava infeccionando pra me mostrar que não havia mais espaço onde guardar. bati na porta duas vezes. meu corpo decidiu que não podia mais suportar a dor e desmaiei no corredor. 
 
“Oh, don’t be scared about it
Don’t forget it was real
Do you remember the way it made you feel?
Do you remember the things it let you feel?”
 
o impacto do meu corpo caindo no chão me acordou. levantei. eu sabia que precisava encarar, não dava pra continuar sofrendo e com isso fazer as outras pessoas sofrerem também. entrei. falei. não tudo o que eu tinha preso na garganta, mas foi uma das vezes na vida em que mais fui honesto. comigo mesmo. onde eu me coloquei em primeiro lugar, ainda que com medo de magoar quem eu tanto amo, mas não suportava mais aquilo dentro de mim. eu já havia tentado falar, de diversas formas. nunca havia sido o suficiente e estava na hora de fechar o livro. não tinha mais páginas pra eu escrever. 
 
“How do I make you stay,
When it’s easier to let you go?
Nobody knows what we know about it
No one needs to know
Call me when you’ve made up your mind but you won’t
Caught up in a way that you played my heart
Only love could ever hit this hard”
 
mas depois de tudo isso, a dor ficou ainda mais forte. eu sei que eu devia ter colocado tudo pra fora, mas me senti fraco. me senti fraco de não conseguir ser a pessoa que ele esperava que eu fosse. o amigo, o irmão fraterno e desapegado. e tudo isso é simplesmente algo que eu mesmo tenho que carregar dentro de mim. digerir. entender. não sei se eu errei em alguma coisa, provavelmente devo ter errado em muitas. minhas inconstâncias de humor, que na verdade eram só uma luta interna sendo travada. eu suprimia, voltava, agia normal. e dentro de mim continuava aquela espada cravada no peito. o coração apertado. eu sorria. estendia a mão quando na verdade eu queria poder colocar meu coração em uma caixa com um laço vermelho e dizer: é teu. mas não era, era meu. 
 
“When you love to your limit
You gave all you’re given
Who you gonna pray to when you’re there?
Will you find out that there ain’t no other love
No other love for you”
 
passei meses reconstruindo minha auto estima. me firmando novamente depois que tudo havia desmoronado em cima de mim não há muito tempo. e eu estava em pé. brilhando. seguro. me sentia bem com meu corpo, comigo mesmo. eu estava mudando tudo aquilo que passei anos tentando. me aceitei. e estava indo bem. até que tudo isso aconteceu. me senti fraco por não corresponder ao que ele precisava e ao mesmo tempo me senti mal por não conseguir, convivendo e mostrando quem eu realmente era, mostrar o meu valor. o erro sempre foi meu. como eu disse, havia uma inconstância no meu humor que ficava entre a prática do desapego e um amor vibrante que queria extravasar. então eu me frustrava, fechava a cara e acabava sendo rude. depois disso eu parava e pensava: não, eu não posso fazer isso com ele. eu tenho que ser a pessoa que ele mais precisa no momento, e eu sabia que sendo essa pessoa eu mudaria completamente a visão que ele teria de mim. ele jamais iria me amar de maneira carnal me vendo como um irmão. a decisão era minha. e eu havia decidido ser o irmão que ele precisava que eu fosse. e isso foi me matando lentamente.
 
“Oh, when you think about it
Do you remember me?
Do you remember the way it made you feel?
Do you remember the things it let you feel?”
 
agora acabou. eu fiz tudo o que eu poderia ter feito por ele. dei todas as ferramentas para que ele se firmasse e seguisse o próprio caminho. meu amor é grande demais pra continuar da forma como estava. eu sou egoísta. sempre fui. um dia talvez eu aprenda a lidar com essa dor. hoje, eu consegui sair do quarto pela primeira vez nos últimos dias. pela minha mãe. mas nada consegue me tirar do sentimento de incapacidade, o sentimento de que eu falhei nas minhas tentativas, tanto de tê-lo mais próximo quanto de supera-lo. e agora só me resta esse limbo, preso entre o céu e o inferno dentro da minha própria cabeça. eu não acho que ele simplesmente perceberá o quanto ele era feliz, porque no fundo, eu acho que eu o machuquei tanto quanto ele acabou, sem querer, me machucando também. tenho certeza que isso um dia vai passar. sempre passou. mas ambos temos caminhos diferentes a seguir. nós nos amamos, na mesma intensidade, mas com intenções completamente diferentes. a bifurcação chegou. para nós dois. o adeus vai ser extremamente doloroso e eu não sei como vou passar por isso. só espero que eu consiga passar, e continuar, todos os dias, desejando que ele seja a pessoa mais feliz do mundo, porque ele não merece nada menos do que isso. nem eu.
 
 
a música que traduz muito bem o que eu sinto, é do Jarryd James – Do You Remember. mas eu não posso dedica-la a ele. eu preciso deixa-lo ir.
 

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