
“eu sou a calmaria da tua tempestade”
Carlo Enrico
Passei a semana de maneira despretenciosa, como eu acho que tenho levado a maior parte da minha vida. Gerar expectativas nunca me tiraram, de maneira real, do lugar. Ao contrário, algumas vezes a expectativa me empurrou para abismos silenciosos e fui aprendendo, não sem apanhar, a deixá-la de lado vagarosamente. E foi assim que fui te levando. Eu não acredito mais naquela coisa de pessoas que são bonitas demais para mim. Isso não existe. Existem modelos de corpo diferentes, preferências, ou o que queira chamar. Eu tenho o meu, você tem o teu, fim. E a semana foi passando e algo me chamava muito a atenção em você. Não era algo puramente físico, tinha alguma coisa ali, no sorriso, na voz, em algum lugar e fui deixando as coisas acontecerem. Eu nem sei como fomos nos conhecer em um aplicativo que olha, honestamente, nada vai pra frente, nem pra mim e nem pra você, mas de alguma forma foi.
Você chegou no aeroporto enquanto eu tentava me equilibrar em pernas bambas. O que me chamou a atenção foi esse frio na barriga, essa tremedeira involuntária. Você não é o Papa e fazia bons anos que isso não acontecia, mas bem, estava ali. Parecia que eu estava em uma perna de pau grande demais e que a qualquer momento eu poderia cair. Mas daí você mandou um áudio dizendo: estou saindo. Eu já estava a ponto de chamar o SAMU e pedir um carrinho de parada cardíaca. Você ia chegar e eu estaria passando de maca. Mas não aconteceu dessa forma. A porta automática abriu vagarosamente e você foi surgindo aos poucos. Daí você sorriu. Meu Deus do céu, você sorriu e eu pude sentir meu coração trocar de lugar com o estômago. Aquilo não era normal. Você me abraçou e foi como sentir que o tempo havia parado. Nada se movia.
No começo eu confesso que foi um pouco difícil acompanhar o teu raciocínio. E eu havia escutado isso a meu respeito no dia anterior. Fiquei pensando que talvez tenha sido essa a impressão que eu passei antes, porque não era fácil acompanhar. Acho que eu precisaria trocar todas as tomadas da minha casa para o 220V para poder dar conta dessa energia toda. Contagiante. Você sentou no carro e parecia que ocupava todo o espaço. Tentei apagar a luz interna e vi que era você brilhando. Você parecia uma tempestade elétrica do meu lado e eu a calmaria do olho do furacão. Até que o tempo foi passando e o papo correndo. Eu tentava me esquivar para não te tocar mas foi apenas uma questão de tempo até que você deitasse a cabeça no meu peito. E de novo o mundo inteiro havia parado. Você me olhou e inclinou a cabeça bem devagar. Teus lábios tocaram os meus e houve uma explosão, quase nuclear, de um beijo que te tira o fôlego. Foi uma conexão instantânea, o wifi com a senha salva. E eu me deixei levar por aquilo quebrando paradigmas, conceitos e tudo o que sempre me travou a vida. Por algumas horas eu fui teu com o corpo e a alma e tudo aquilo só poderia levar em duas situações: inferno ou paraíso. Havia uma harmonia perfeita na forma como meu corpo se conectou ao teu. O teu perfume sendo impresso na minha pele como uma tatuagem daquelas que só sai com álcool se a gente esfrega muito bem.
Descobri mais pontos em comum do que o contrário. Inclusive acho que perceber alguns pontos em você, fizeram com que eu parasse pra entender alguns meus. Não era o mesmo que olhar para o meu reflexo no espelho, mas eu acredito que, de alguma forma, você é parte do que eu queria ser e talvez eu seja parte do que você poderia ter sido. O ponto de equilíbrio, ou de impacto. Algumas coisas já eram nítidas demais, para mim, que jamais funcionariam. Mas eu já errei muito na vida e nas análises de travesseiro, e bem, deixei as expectativas para trás, não é? Elas que se explodam junto com todas as análises possíveis. O teu papo é gostoso, as coisas fluíram de uma forma natural que até me surpreenderam. Eu não precisei vestir máscaras para te agradar, fiquei com a minha cara blasé de sempre e um sorriso encabulado. Eu sou tímido pra caralho e às vezes acabo disfarçando com extroversão, ou fico falante, mas eu não precisava disfarçar nada. Se você não tem expectativa, com o que você vai se decepcionar? Nada. Tudo é lucro. Talvez a minha história termine com o exato mesmo nome que ela começou. E você nem faz ideia disso. Se a vida é cíclica, aquilo poderia ser o início do fim. O fim do começo. O momento em que os paralelos se encontram no final do Universo, e de novo, eu me tornava infinito.
Tudo o que eu esperava do dia seguinte me surpreendeu da maneira oposta. E isso foi maravilhoso de ver. Vou continuar sem as expectativas. Não vou planejar e nem sonhar. A vida sempre acontece, de uma forma ou de outra. A maré sobe e desce todos os dias, a gente querendo ou não. A Terra continua a rotação e eu vou me deixar levar nesse movimento contínuo de descoberta. As pessoas são complexas demais para acharmos que já sabemos tudo em algumas horas. Há surpresas por todos os lados, positivas ou não. Talvez eu seja a surpresa, o equilíbrio, a calmaria que te falta. Ou talvez eu não seja nada disso, seja apenas mais um, uma estatística da tua vida. E quer saber o que eu acho? Eu quero que se foda! Chegou o momento em que eu preciso parar de mimimi e ir viver. E se for me procurar eu estarei por aí, em algum lugar. Eu tô indo, e se quiser, dessa vez, vem me buscar, porque eu estou indo me perder, pra me encontrar.
c.e.
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