dia 25/365.



eu estava preparado pra aproveitar até o último suspiro. e havia agora mais do que eu planejei. o avô do meu marido havia desencarnado um dia antes. no mesmo dia do meu pai. longe. não era uma opção nos movermos dali para irmos a lugar nenhum, então ficamos. o que restava? distrair a cabeça, a mente e o corpo.

procuramos uma praia e acabamos indo a uma já conhecida. porque o familiar às vezes dá uma certa segurança. até quando a gente não percebe. o quiosque que você já conhece, o cardápio sem surpresas, o atendimento que não é nem muito bom nem muito ruim. a praia sem ondas. você sabe o que esperar. e isso acalma. acredito que ter rodado uma hora e ido parar no mesmo lugar não foi à toa, foi a vida dando alguma lição nas entrelinhas.

talvez por isso o dia tenha seguido assim, sem grandes acontecimentos, mas cheio de pequenos apoios. às vezes, o que sustenta a gente não é o novo, é o conhecido. o caminho já feito, o lugar que não exige explicação, o silêncio que não constrange.

o tempo passou meio sem pedir licença. teve chuva, dessas que caem fortes, como se quisessem lavar alguma coisa que a gente não sabe nomear direito. dormimos com o barulho da água batendo forte, e acordar depois disso trouxe uma sensação estranha de reinício, mesmo sem nada ter realmente começado.

voltar também fez parte do processo. subir a estrada, deixar o mar pra trás, sentir o corpo cansado de um jeito bom. voltar pra casa, pra rotina, pra familiaridade que espera sem cobrar. pros cachorros que fazem festa como se o mundo tivesse acabado e recomeçado na mesma tarde.

viajar é bom. ajuda a afastar o barulho. mas voltar é o que organiza. é quando tudo se encaixa de novo, mesmo torto. e ser recebido assim, sem perguntas, sem expectativas, só com presença, lembra a gente de onde ainda existe abrigo.

talvez o dia tenha sido isso. não uma fuga, nem um fechamento. só um movimento necessário. um intervalo. uma forma silenciosa de seguir em frente, mesmo quando o peso insiste em acompanhar.


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