dia 41/365.



eu tenho muita fé na humanidade. até pegar trânsito em são paulo. além da paciência necessária, em algum momento dirigir virou uma espécie de ufc. e eu não sei quando isso aconteceu.

hoje eu vi uma mulher com um adesivo: eu freio para animais. e meu único pensamento foi: claro, porque você é uma. sério, parecia uma neandertal no volante. toda a fé que eu tenho na humanidade me escapa quando eu dirijo no horário de pico pelas ruas paulistanas ou da região metropolitana. carteira de habilitação virou quase um porte de armas.

porque não é só sobre dirigir. é sobre competir. ninguém quer chegar. todo mundo quer vencer. você liga a seta e a pessoa atrás acelera. você mantém distância e alguém ocupa o espaço como se estivesse salvando o mundo. faixa virou sugestão. retrovisor virou decoração. buzina virou instrumento musical.

e existe uma coreografia do caos que me impressiona. o sujeito costura três faixas, quase arranca teu retrovisor, freia bruscamente, e cinco minutos depois está parado ao seu lado no mesmo semáforo. todo aquele esforço pra chegar exatamente onde você já estava. é quase poético, se não fosse trágico ou mesmo ridículo.

eu tento manter a calma. juro que tento. respiro. conto até dez. às vezes até vinte. mas basta alguém atravessar duas pistas sem seta e ainda reclamar de você pra eu questionar toda a evolução da espécie humana.

no trânsito eu descubro que minha fé na humanidade é condicional. ela depende de fluxo. depende de seta. depende de ninguém tentar me ultrapassar pelo acostamento como se estivesse fugindo de um apocalipse. ou me fechar como se estivesse com mais pressa que todas as outras pessoas do planeta.

cheguei em casa inteiro. psicologicamente arranhado, mas inteiro. o que, sinceramente, já é uma conquista. porque dirigir em são paulo deveria ser considerado esporte de alto risco. com categoria própria nas olimpíadas e tudo.

modalidade: sobrevivência urbana.

 nível de dificuldade: faixa expressa às 18h.

medalha de prata pra quem chega sem buzinar.

ouro pra quem não xinga ninguém.

hoje eu fiquei sem pódio.


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