dia 42/365.



eu marquei três coisas no mesmo dia. nenhuma delas conversava entre si. nenhuma delas estava no mesmo bairro. aliás nem na mesma cidade! e, obviamente, nenhuma delas estava realmente na minha cabeça.

eu esqueço. esse é o ponto. eu não esqueço por rebeldia. não esqueço porque não me importo. eu esqueço porque meu cérebro funciona como aquelas abas do navegador com 47 páginas abertas e um vídeo tocando em algum lugar que eu nunca descubro onde está.

eu já tentei agenda. comprei uma bonita, capa dura, papel de qualidade. escrevi na primeira semana com caneta preta elegante (porque eu não tenho maturidade alguma quando eu entro em uma papelaria). depois ela virou item decorativo. às vezes eu abro e descubro compromissos que aconteceram no passado como se fossem spoilers atrasados da minha própria vida.

whatsapp comigo mesmo? genial na teoria. eu tenho meu próprio contato salvo. mando áudios, mando mensagens, mando “não esquecer disso”. o problema é que as mensagens vão subindo. somem. ficam enterradas sob outras urgências. quando eu lembro de procurar, já estou lendo algo que eu mesmo escrevi há três dias e que claramente eu ignorei.

alarme? também tentei. ele toca no pior momento possível. sempre. toca quando eu estou dirigindo. toca quando estou no meio de uma conversa. toca quando eu não posso parar. eu desligo pensando “já vi, já sei”. quando chego ao destino, meu cérebro decide que aquele aviso era apenas uma trilha sonora da minha existência.

às vezes eu esqueço até o celular no carro. imagina se eu vou lembrar que o alarme tocou. o alarme vira uma memória vaga, quase um sonho. algo que talvez tenha acontecido. igual quando eu desligo o despertador (eu tenho uns oito diferentes pra me acordar de manhã e nenhum, de fato, me acorda).

e mesmo assim eu continuo marcando coisas. duas, três, quatro no mesmo dia. com uma confiança absurda de que eu vou conseguir. eu marco horário colado um no outro como se eu tivesse o dom do teletransporte ou como se são paulo fosse uma cidade pequena onde tudo acontece na mesma rua.

não é.

a parte mais impressionante é que eu realmente acredito, no momento em que marco, que está tudo sob controle. eu falo “claro, consigo sim” com uma convicção que beira o delírio. depois eu estou no trânsito, atrasado, lembrando que eu deveria estar em outro lugar ao mesmo tempo.

no fim das contas, eu não preciso de agenda. eu preciso de um adulto responsável morando dentro da minha cabeça com um apito e uma planilha.

até lá, sigo assim. marcando, esquecendo, remarcando. vivendo numa espécie de reality show chamado “será que ele vai lembrar?”.

a resposta quase sempre é: não.


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