dia 43/365.



fui ao teatro assistir a dra. rosângela. aquela mesma. a psicóloga que não tem absolutamente nenhuma paciência com a humanidade e transforma isso em arte. eu me identifico. o humor ácido, a falta de filtro, a sinceridade levemente perigosa. em vários momentos eu pensei: ela sou eu, se eu tivesse coragem de falar metade do que eu penso. e se não fosse o código penal.

só que eu não estava exatamente no meu auge. ainda estava sob o efeito de um dos remédios novos da minha psiquiatra que, ao que tudo indica, resolveu tirar meu apetite e uma parte considerável da minha simpatia junto. segundo o marido, eu estava “um pouco agressivo”. segundo eu, eu estava apenas sendo objetivo. mas como não sou um narrador imparcial, deixo o julgamento em aberto.

pra ajudar, tem a viagem. amanhã.

e eu tenho um problema sério com ansiedade pré-viagem. não é aquele friozinho na barriga normal. é um negócio que sobe, aperta o peito, cria cenários catastróficos completamente desnecessários e me faz questionar se não seria melhor simplesmente cancelar tudo e fingir que nunca combinei nada.

nem é longe. menos de três horas de carro. de carro, inclusive, que é o único cenário em que eu sinto algum tipo de controle sobre a vida. mesmo assim, a angústia vem. como se eu estivesse atravessando um oceano em um barco furado.

é sempre muito mais fácil desistir. mandar uma mensagem dizendo que surgiu um imprevisto. inventar qualquer desculpa razoável. ficar em casa, seguro, dentro da rotina conhecida. enfrentar essa sensação é desconfortável. e desconforto nunca foi meu hobby preferido.

no teatro, eu ri. ri de verdade. ri da dra. rosângela, ri das verdades mal-educadas dela, ri de mim mesmo. e em algum momento eu pensei que, se eu tivesse desistido de sair hoje, teria perdido exatamente isso.

agora estou aqui, pensando na mala que ainda nem comecei a arrumar.

amanhã eu viajo.

ou não.


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