
eu não gosto de lugar cheio. não importa o tipo de lugar. festa, casa, restaurante, evento, churrasco, reunião familiar. se tem gente demais, meu cérebro começa a procurar rota de fuga.
e eu ia ficar na casa de uma amiga. quer dizer, amiga não. é praticamente minha irmã. e a casa ia ficar cheia. do tipo insuportavelmente cheia. gente entrando, gente saindo, gente falando ao mesmo tempo, televisão ligada, risada alta, panela batendo, porta abrindo. o caos social completo.
mas no meio disso tudo, a vida fez uma coisa interessante.
a gente tinha feito amizade com um casal. e quando chegamos, eles mandaram mensagem avisando que a suíte estava pronta. só esperando a gente. eu li aquilo como quem lê um versículo sagrado.
educadamente aceitamos, claro. seria até estranho recusar naquele ponto. mas, na prática, aquilo nos salvou. salvou meu limite social. salvou meu sistema nervoso. salvou meu humor.
e tem uma coisa curiosa sobre amizade depois de uma certa idade. ela não acontece com a mesma facilidade de antes. não é mais “oi, quer brincar?”. é quase uma entrevista informal de compatibilidade emocional.
mas ali… encaixou.
a conversa fluía. o ritmo era parecido. ninguém forçava assunto. ninguém precisava performar nada. dava pra ficar em silêncio sem virar constrangimento. dava pra rir alto sem virar exagero.
não foi só um encontro. foi aquela sensação rara de reconhecer alguém. como se a vida tivesse cruzado caminhos que já se conheciam de algum lugar.
e eu que estava preocupado com a casa cheia.
às vezes o que salva não é o plano original. é o desvio.
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