
infelizmente decisões precisavam ser tomadas. mas eu ainda tinha um dia inteiro pela frente, e eu resolvi fingir que a responsabilidade podia esperar mais algumas horas.
fomos à praia. levei minha irmã. e foi perfeito. simples assim. o celular continuou sendo um objeto decorativo, largado na bolsa como se eu tivesse finalmente entendido que o mundo consegue girar sem a minha supervisão constante. eu não queria saber de nada além daquele pedaço de areia, do barulho do mar e da sensação rara de não estar atrasado para nada.
tomei sol sentado. erro estratégico. hoje eu pareço um experimento mal-sucedido de bronzeamento artístico. fiquei meio xadrez. um lado mais queimado que o outro, como se meu corpo tivesse decidido testar um conceito abstrato de simetria. tenho queimaduras em lugares que eu nem sabia que pegavam sol. aparentemente pegam. todos pegam.
a água estava tão gostosa que, por alguns minutos, eu considerei largar tudo e virar uma alga. sem boleto, sem trânsito, só boiando e fazendo fotossíntese emocional.
à noite fomos a uma pizzaria maravilhosa. daquelas que você lê o cardápio e pensa “isso é pizza ou tese de doutorado?”. provei sabores que eu jamais teria coragem em casa. ali fazia sentido. e eram absurdamente bons. eu queria morar naquela pizzaria. ou pelo menos ter uma casa naquela ilha. desejei estar ali mais vezes. ser parte daquilo. ter uma rotina com vista pro mar e problema reduzido a escolher entre pizza de limão siciliano ou de shimeji com gorgonzola.
mas decisões precisavam ser tomadas.
ir embora no dia seguinte e enfrentar o trânsito que certamente começaria a se formar depois do feriado de carnaval? ou sair naquela mesma madrugada, antes que o caos começasse?
decidimos ir embora naquela madrugada. dormimos um pouco, juntamos as coisas em silêncio, como quem tenta não acordar a realidade.
e eu senti uma dor estranha no peito. não era dramática. não era cinematográfica. era aquela dor pequena e teimosa de quem não quer ir, mas sabe que precisa.
às vezes amadurecer é isso. sair antes que o paraíso vire congestionamento.
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