dia 52/365.



dia 52/365.

eu precisava estar em dois aniversários hoje. duas comemorações. dois bolos. dois “parabéns pra você” em tons completamente diferentes. e apenas um de mim.

já pesquisei, mentalmente, a possibilidade de clonagem. nada muito ilegal. só algo prático. tipo abrir o guarda-roupa, puxar uma versão minha dobrada ali entre as camisetas e dizer: vai lá, socializa por mim, depois me conta se teve brigadeiro bom e rissoles de presunto e queijo (meu preferido). mas ainda não chegamos nesse nível tecnológico. infelizmente.

então eu fui.

e aqui entra um detalhe importante sobre mim que não vem escrito na testa, mas poderia vir em um manual técnico: minha bateria social não é dessas modernas, de íon-lítio. ela é aquelas pilhas vendidas no trem. quatro por dez reais. embalagem duvidosa. promessa ousada. duração questionável (spoiler: não dura).

ela sai de casa marcando 100%. chega no primeiro “oi, tudo bem?” já cai pra 82%. depois de três abraços, dois assuntos paralelos e uma criança gritando perto da mesa de salgados, estamos operando em modo economia de energia pra tentar chegar no parabéns sem rosnar pra ninguém.

não é que eu não goste das pessoas. eu gosto. de verdade. gosto das conversas, dos detalhes, das histórias. mas meu cérebro trabalha como se estivesse rodando 27 abas ao mesmo tempo enquanto tenta decodificar expressões faciais, tom de voz, ironia, expectativa social, volume ambiente e ainda lembrar de não ficar encarando fixamente a mesma pessoa por tempo demais. é um congresso interno acontecendo enquanto eu sorrio e seguro um copo de coca zero.

aí eu saio do primeiro aniversário já com aquela sensação de que participei de uma maratona olímpica da interação humana. entro no carro. silêncio. glória. alguns minutos de paz que funcionam como carregar 4% de bateria. o suficiente para ligar o aparelho de novo, mas não para rodar todos os aplicativos.

chego no segundo.

e lá vamos nós outra vez. mais pessoas. mais barulho. mais “vamos tirar foto?”. claro, vamos. eu sorrio. sorrio como quem sabe que a pilha está piscando vermelho, mas ainda assim entrega performance. correndo o risco de desligar a qualquer momento, igual iphone quando chega nos 15% e você sabe que ele pode desligar do nada.

em algum momento eu me peguei calculando quanto tempo eu precisava ficar para que fosse socialmente aceitável ir embora. não por falta de carinho. mas por falta de volts.

voltei pra casa com aquela sensação específica de quem cumpriu a missão. não fui o mais expansivo. não fui o mais falante. mas fui. estive. ouvi. abracei. ri quando deu. não rosnei pra ninguém. sobrevivi.

agora estou aqui, conectado na tomada emocional da minha sala, recarregando em modo avião.

amanhã eu talvez esteja com 38% de bateria. o que, pra mim, já é alta performance.


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