dia 55/365.



a terça foi basicamente um braço da segunda. daqueles braços que continuam te segurando pela gola e dizendo “a gente ainda não terminou”.

o sono segue me perseguindo como uma entidade espiritual de baixo orçamento. não é um cansaço elegante. é um encosto mesmo. eu acordo e ele já está sentado na beira da cama, cruzando as pernas, dizendo: bom dia, vamos estragar seu ritmo hoje?

continuei fazendo o que dava. sorrindo quando possível. funcionando dentro do limite técnico do equipamento. pelo menos a nica estava comigo no trabalho, o que ajuda. porque ter alguém ali pra quebrar o ciclo de pensamento repetitivo evita que eu comece a conversar sozinho com as planilhas.

no meio disso tudo, descobri que marcaram minha consulta de retorno com a psiquiatra. esqueceram de me avisar. detalhe irrelevante, aparentemente. eu gosto dessa confiança que as pessoas têm na minha telepatia.

cheguei lá e ela fez aquela análise clínica que mistura ciência com um leve olhar de “você está bem, mas está um pouco perigoso”. aparentemente um dos remédios estava me deixando… mais reativo do que o necessário. eu já estava proibido de tomá-lo desde o carnaval.

por quem?

pela sociedade.

não foi nada oficial. não teve decreto. mas digamos que houve relatos. testemunhos. olhares. um certo consenso de que eu estava rosnando além da cota mensal permitida. nada grave. só aquela energia de pinscher pós-expresso duplo.

então ela trocou de novo.

mais uma fase do reality show farmacológico chamado “qual versão de mim vai aparecer essa semana?”. eu assino os termos, compro a medicação e penso: ótimo. vamos ver quem eu serei amanhã.

seja o que deus quiser, mas se possível, que ele queira algo equilibrado, funcional e que não rosne para o caixa do mercado.

no fim do dia, eu estava ali. ainda meio sonolento. menos ameaçador. um pouco mais regulado.

e eu sigo.

ajustando botão, calibrando humor, testando combinações químicas como se minha cabeça fosse um laboratório em tempo integral.

terça foi isso.

uma segunda com extensão meio mal resolvida.


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