
belchior,
eu não quero lhe falar das coisas que aprendi nos discos. você já escreveu essa frase antes de mim. e talvez tenha sido a frase que me ensinou que teoria nenhuma substitui a vida acontecendo na pele.
eu quero lhe contar como eu vivi.
eu cresci ouvindo que a minha geração era diferente. que nós éramos mais conscientes, mais abertos, mais livres. crescemos dizendo que não repetiríamos os erros. que amaríamos melhor. que trabalharíamos menos e viveríamos mais. que não nos venderíamos. que não nos calaríamos. que não nos acomodaríamos.
e, no entanto, aqui estamos.
trabalhando demais. cansados. com medo das contas. discutindo as mesmas pautas que nossos pais discutiram. repetindo as mesmas estruturas que juramos derrubar. idolatrando novos nomes que funcionam exatamente como os antigos. mudam as roupas, mudam as hashtags, mas o mecanismo é o mesmo.
“ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.”
essa frase não é uma constatação simples. ela dói. ela é uma ferida aberta. porque ela nos obriga a admitir que não basta querer ser diferente. é preciso ter coragem para pagar o preço de ser diferente. e esse preço quase sempre é alto demais.
você falou do perigo na esquina. ele continua lá. talvez agora mais silencioso. talvez agora travestido de progresso. mas continua lá. o sinal ainda fecha para quem quer abraçar o irmão e beijar a menina na rua, só que agora o julgamento vem em forma de algoritmo, de opinião pública, de cancelamento, de estatística.
o novo sempre vem, você disse.
e eu quero acreditar nisso. porque se o novo não vier, a gente se afoga numa nostalgia confortável. a gente vira exatamente aquilo que criticava. a gente começa a amar o passado não por ele ter sido melhor, mas porque ele já está resolvido. ele não exige coragem. ele só exige memória.
talvez a parte mais cruel da sua música seja essa: perceber que, apesar de tudo o que fizemos, continuamos parecidos demais com quem veio antes. mas talvez também exista uma esperança escondida aí. porque se somos como nossos pais, também herdamos deles a capacidade de mudar, ainda que devagar, ainda que contraditoriamente.
viver é melhor que sonhar. eu aprendi isso errando, caindo, tentando sustentar empresas, relações, expectativas. aprendi que consciência não paga boleto. mas também aprendi que sem consciência a gente paga um preço maior: o de não se reconhecer no espelho.
você completaria 80 anos. “alucinação” faz 50. e a música continua atual demais. isso é um elogio à sua obra e uma acusação ao nosso tempo. porque se nada tivesse mudado, sua canção seria apenas memória. mas ela é diagnóstico.
talvez o que eu queira lhe dizer, belchior, é que sua pergunta continua ecoando: o que fizemos com a juventude que prometia reinventar o mundo?
eu não tenho uma resposta definitiva. mas eu sigo tentando não amar demais o passado. sigo tentando acreditar que o novo vem, não como moda, mas como escolha. escolha diária. pequena. quase invisível.
se ainda somos os mesmos, que ao menos sejamos os mesmos um pouco mais conscientes.
com admiração e inquietação,
enrico pierro
ps: essa carta foi parte de um projeto para a revista sarau.
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