
se a vida viesse com manual, eu ia ignorar.
ia dizer “relaxa, eu sei montar”.
duas horas depois eu estaria sentado no chão, cercado de peças sobrando, olhando para o teto e fingindo que aquilo faz parte.
essa madrugada eu dormi mal. não foi insônia melancólica, foi aquela categoria “cérebro resolveu abrir reunião às 3h17 e revisar todos os meus erros em ordem cronológica”. acordei, virei de um lado, virei do outro, pensei em contas, em decisões, em coisas que eu disse em 2014 e não precisava ter dito.
o dia começou bem. suspeitamente bem. café funcionando, humor estável, nenhuma tragédia aparente. eu até desconfiei. porque quando está tudo muito certo, geralmente é só o universo aquecendo o palco.
e claro que desandou.
nada cinematográfico. só aquele efeito dominó invisível de pequenas coisas que vão tirando a graça da existência. eu continuei firme, claro. já sou faixa preta em fingir estabilidade emocional quando eu estou gritando e chorando em posição fetal por dentro.
mas o ápice do dia foi à noite.
primeira aula do curso no centro espírita. eu fui todo aplicado. caderno mental aberto, postura respeitosa, pronto para aprender.
descobri que, nesse centro, eu preciso fazer três anos de preparação para começar o curso que eu já fiz mais da metade em outro lugar.
três. anos.
eu fiquei ali sentado, olhando para o nada, tentando decidir se aquilo era um teste espiritual ou uma pegadinha elaborada. porque eu já vi tudo. eu sei de cor. eu estava ouvindo as explicações e meu cérebro estava fazendo playback automático, tipo reprise de novela das seis.
em algum momento eu quase dormi. não por desrespeito. por déjà vu.
eu não sei se eu vou aguentar três anos de revisão expandida. eu respeito o processo. eu entendo a lógica. mas a minha alma estava ali pensando: amigo, eu já montei esse móvel. posso só apertar os parafusos finais?
saí de lá tentando praticar desapego. talvez isso seja o aprendizado. paciência. humildade. ou só mais uma peça sobrando na mesa da vida que eu vou fingir que não vi.
no fim, voltei pra casa com a sensação de que eu sou exatamente o tipo de pessoa que ignora o manual e depois reclama da complexidade.
mas amanhã eu tento de novo na vida ou semana que vem no curso.
talvez dessa vez eu leia pelo menos a primeira página.
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