dia 57/365.



quinta-feira. o trailer oficial da sexta. o corredor polonês entre o cansaço acumulado e a promessa ilusória de descanso.

hoje acendeu uma luz no trabalho. e não foi curto-circuito. foi luz mesmo. daquelas que fazem a gente olhar pro nada por três segundos e pensar: “será?”. quando a coisa começa a encaixar, quando o telefone toca com a notícia certa, quando um número fecha, quando a sensação é de que, talvez, só talvez, o universo tenha resolvido parar de brincar comigo de pega-pega financeiro.

mas eu não sou emocionado. não mais. já fui. hoje eu sou aquele adulto calejado que recebe uma boa notícia e responde com um “ah, que bom” enquanto por dentro está fazendo uma dancinha tímida, com medo de que a vida esteja escondida atrás da porta esperando eu comemorar pra gritar: surpresa, trouxa.

porque você sabe. quando a gente comemora cedo demais, existe uma chance considerável da vida encostar na gente e dizer: segura meu espetinho aqui que eu vou te mostrar uma coisa rapidinho.

então eu comemorei em silêncio. comemorei baixo. comemorei com moderação, igual gente que já tomou muito tombo.

mas claro que teve surpresa do tipo: o gás veio! (comemoração).

alguns minutos depois: o caminhão do gás levou os fios da internet embora. (desespero).

porque a vida é isso. um equilíbrio estranho entre alegria e desespero. entre fechar um contrato e, meia hora depois, chorar no banheiro por causa de outro.

mas o dia não foi só planilha, boleto e mini infartos emocionais. hoje eu lembrei que eu também sou escritor. quase-influencer. aspirante a pessoa pública que ainda sente que vai desmaiar quando ligam uma câmera.

dei uma entrevista pra um programa de tv. coisa rápida. curta. simples. aparentemente inofensiva. só eu, umas câmeras e dois apresentadores, algumas perguntas e o meu cérebro entrando em modo “corra pra se salvar”.

é impressionante como meu corpo reage como se eu estivesse prestes a enfrentar um leão, quando na verdade eu só precisava responder: “como surgiu o seu livro?”. meu coração decidiu correr uma maratona sozinho. meus batimentos ficaram opcionais. o chão parecia ter desaprendido a função básica de sustentar pessoas.

eu, por dentro: calma, você já fez coisa pior. você administra uma fábrica. você negocia dívida. você sobrevive a segundas-feiras.

 eu, por fora: sorriso educado, postura minimamente firme, tentando não piscar em câmera lenta.

sobrevivi. ninguém percebeu que eu estava a dois pensamentos de virar meme por desmaio ao vivo. vitória.

o preço foi uma dor de cabeça digna de internação preventiva e a sensação de que eu preciso de 48 horas consecutivas de sono. coisa simples. básica. acessível. totalmente compatível com a rotina de quem acorda antes do despertador porque o cérebro resolveu abrir reunião extraordinária às 5h12.

mas, no meio de tudo, teve luz. teve trabalho andando. teve lembrança de que eu sou mais do que a soma das contas a pagar. teve câmera. teve medo. teve coragem mesmo assim.

quinta não é uma segunda, é o tapete de entrada do final de semana e ainda que esse prometa coisas que talvez me derrubem emocionalmente, pelo menos algumas coisas eu sei que me darão um leve descanso. mas é melhor eu não falar em voz alta, antes que a vida fale: segure meu espetinho.


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