brasilidades.



cada dia que passa eu vejo mais estrangeiros com conta no instagram morando no brasil e enaltecendo tudo o que se refere ao nosso país. e nós, brasileiros?

postamos fotos nas praias do méxico e caribe, mas não sabemos o nome de nenhuma praia da paraíba de cor. e olha que as praias do nordeste não perdem em nada das do caribe. na verdade, ao contrário, as do caribe é que perdem. ou você já conseguiu comprar óculos de sol, milho cozido com manteiga, tomar uma caipirinha, fazer bolão da mega sena, comprar um consórcio ou um carro, uma canga, um chapéu (essa lista é infinita), nas praias de lá? não, porque isso só existe aqui.

enquanto a gente fecha o vidro pra andar pelo centro das grandes cidades, abrimos os braços nos centros europeus. você vai falar da violência, né? bom, eu abri os braços em paris e voltei sem carteira, sem passaporte, sem dinheiro e quase sem dignidade. tentaram me furtar em barcelona e milão também. tipos diferentes de violência? até podemos considerar. mas não adianta ficar tapando o sol com a peneira. nem tudo lá fora são rosas. uma amiga e a família foram assaltados a mão armada assim que saíram do aeroporto de miami. embarcaram em um cruzeiro pela jamaica sem um dólar, sem roupas, sem passaporte (precisaram implorar um provisório). meu padrinho fez compras num outlet e guardou tudo no carro. roubaram o carro. entende?

já vi gente espantada porque o prato típico do réveillon italiano (chique, né?) era língua de boi. exato: aquilo que a gente ignora no açougue porque acha um pouco nojento. e na frança mesmo isso é bem comum. é até um dos pratos principais de um bistrô parisiense em são paulo, junto com tutano de boi, outro ignorado nos açougues brasileiros pela classe média. porque o que a gente mais faz é, justamente, ignorar. temos a cidade com o maior número de restaurantes de nacionalidades diferentes que existe no planeta: são paulo. mas ficamos encantados com o que se come lá fora, ainda que seja tudo meio sem gosto, meio sem açúcar e sem nenhum afeto, enquanto você pode ir comer quase sendo abraçado pelos garçons, no nordeste (às vezes isso acontece, acredite), se sentir na cozinha da casa de alguém em minas, encher 3 mesas grandes só de pratos típicos paraenses.

a gente tem mania de se achar cachorro vira-lata. daquele que fica olhando o spitzer alemão passando na rua todo empinado, e se encolhe por se achar mais feio. e olha que eu sou o maior fã do vira-lata caramelo, outro patrimônio brasileiro. malandro como um carioca e das “raças” mais inteligentes que existem. além de uma das mais carinhosas. aliás, eu acho que o vira-lata caramelo é a cara do brasileiro. é a mistura de raças, é esperto, é malandro, parece estar sempre sorrindo pra vida, brinca na rua, faz amizade com todos os cachorros e, se você o adotar, ele vai dormir de conchinha com teu gato.

assim também é o brasileiro. a gente compra em loja de chinês que nem fala português, e tá tudo bem. vemos pessoas do mundo inteiro abrindo lojas, restaurantes, pousadas em tudo quanto é lugar. e nunca vi ninguém aqui falar: ah mas estão roubando nossos empregos! ou hostilizar alguém na rua. muito pelo contrário, o brasileiro adora ver gente falando outras línguas pelas ruas. a gente acha isso chique. vai ver isso na europa!?…

falando em europa, de novo, vou te contar que, por mais bonito que seja o continente, a gente tem praticamente tudo isso aqui mesmo, em um único país. claro, somos jovens, não se esqueça disso, e ainda temos muito o que aprender. mas que adianta postar 20 fotos com a torre eiffel de todos os ângulos e não ter uma única foto no cristo redentor? aliás, você já viu o rio de janeiro, lá do alto? duvido que você vá ver algo igual, em qualquer lugar do planeta. simplesmente porque não existe.

aqui a mata atlântica beija ao mar. a amazônia abraça 6 estados e faz o mundo respirar (e brigar também pelo tanto de coisas que ela nos presenteia e que a gente finge que não vê). ficamos maravilhados em pagar centenas de reais em perfumes importados, pra descobrir que boa parte da matéria-prima é amazônica. isso mesmo, aqui do nosso quintal, praticamente aquele pomar que a gente tem atrás de casa.

olhamos as igrejas cheias de ouro e imaginamos a riqueza daqueles países, mas sem parar pra pensar que eles nem ouro têm, era tudo nosso. e de novo ignoramos as igrejas incríveis das cidades históricas mineiras, ou nordestinas, ou do norte. norte esse que, aliás, a gente ignora tanto, que costumamos achar que tudo o que está “pra cima” é nordeste. responde rápido: a que região pertence o tocantins ou o maranhão? é, acho que quase ninguém acerta. entende agora meu ponto?

temos o cerrado, a amazônia, cânions e serras no sul, praias no nordeste, metrópoles imensas no sudeste, ou seja, temos de tudo! mas só procuramos conhecer o que está mais distante, pra depois, em algum momento da vida, perceber que já tínhamos tudo e não demos atenção. temos as maiores maravilhas naturais do planeta, a melhor e mais diversa culinária, tudo o que de melhor existe, mas nos falta orgulho.

em nenhum lugar do mundo a convivência entre diferentes povos é tão pacífica. nenhum povo é tão acolhedor (vai lá ligar pra um amigo europeu e avisar que está indo jantar na casa dele. você perde um amigo ou ele foge de casa pra não te receber). nenhum lugar é tão bonito. nenhuma nação é tão alegre (ok, dizem que o norueguês é o povo mais feliz, mas acho que não andaram pela bahia ao fazer a pesquisa). nenhuma língua é mais bonita. nenhum hino, nenhuma bandeira, nada. somos a beleza do mundo! somos tudo o que o mundo inteiro sempre quis e sempre vai querer ser: brasileiro. agora, sorri para o mundo e conhece a tua própria casa, que eu tenho certeza de que você também vai olhar e falar: ah, mas não existe nada no mundo como o MEU brasil.


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