
sexta-feira costuma ser um daqueles dias que a gente espera com uma certa ansiedade. não necessariamente porque algo extraordinário vai acontecer, mas porque existe uma promessa silenciosa de que a semana está terminando e, com um pouco de sorte, talvez a gente consiga respirar um pouco. sexta tem essa aura de sobrevivência coletiva. todo mundo chega meio cansado, meio aliviado, meio tentando convencer a si mesmo de que valeu a pena.
o problema é quando a sexta chega carregando duas coisas que, individualmente, já são suficientemente intensas: dia de pagamento e dia de viagem.
eu não lido bem com nenhum dos dois.
dia de pagamento, no meu caso, significa aquele ritual meio desesperado de fazer dinheiro aparecer onde aparentemente não existe. é quase uma habilidade sobrenatural que eu fui desenvolvendo ao longo dos anos. não chega a ser um milagre, mas também não está muito longe disso. contas, transferências, números que precisam fechar, decisões que precisam ser tomadas rápido e aquela sensação constante de que qualquer cálculo errado pode virar um pequeno desastre administrativo.
ao mesmo tempo, viajar também mexe comigo. eu sempre fui uma pessoa de hábitos. gosto das coisas no mesmo lugar, do mesmo jeito, com o mínimo possível de variação. mudança nunca foi exatamente o meu esporte favorito. então sair da rotina exige um pequeno esforço psicológico que talvez as outras pessoas nem percebam, mas que dentro da minha cabeça parece um grande evento.
sou um taurino autista. não gosto de mudança. nenhuma. pode até fazer trocadilho com a palavra, mas eu realmente não gosto.
ainda assim, curiosamente, deu tudo certo. consegui resolver as coisas do trabalho melhor do que eu imaginava e aquela velha conhecida apareceu para dar uma ajuda, como quase sempre acontece quando eu mais preciso: a fé. acreditar sempre me ajuda. às vezes eu tenho a impressão de que acreditar resolve metade dos problemas antes mesmo da outra metade se manifestar.
no caminho para a ilha aconteceu uma pequena quebra de rotina. resolvi parar em um lugar diferente. decisão ousada para alguém que, como já ficou claro, prefere que o universo funcione sempre da mesma forma previsível. mas parei. e foi aí que eu vi algo que me chamou atenção de um jeito curioso.
uma salsicha.
linda. brilhando. parecia até uma peça de exposição gastronômica esquecida ali no balcão.
eu pedi.
foi então que o moço que trabalhava lá me contou, com um certo entusiasmo misturado com surpresa, que fazia dois anos que ninguém pedia aquela salsicha no turno dele. dois anos. aquela salsicha estava praticamente aposentada emocionalmente, vivendo ali apenas como um símbolo decorativo da esperança de que algum ser humano eventualmente voltaria a acreditar nela. (claro que não era AQUELA salsicha, mas deu pra entender, né?)
a partir daí começamos a conversar e aconteceu uma coisa que costuma acontecer comigo com bastante frequência. quando eu percebi, já sabia várias coisas sobre a vida dele. quanto ele ganhava, os problemas do trabalho, as histórias daquele lugar, a rotina de quem trabalha ali de madrugada. as pessoas têm uma facilidade impressionante de desabafar comigo. às vezes eu fico com a impressão de que eu tenho algum tipo de aura de confessionário ambulante que faz com que as pessoas simplesmente comecem a contar a própria vida sem perceber.
chegamos na ilha quase três da manhã.
o curioso é que eu ainda estava com energia. aquela energia meio suspeita que aparece justamente quando você sabe que deveria estar dormindo. tomei banho, mexi em algumas coisas, fiquei andando pela casa com aquela sensação de quem ainda está acelerado demais para simplesmente apagar.
resultado: fui dormir quase cinco da manhã.
e naquele momento eu tive uma conclusão absolutamente lógica, científica e praticamente inevitável: o sábado não seria tão produtivo quanto eu havia imaginado.
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