dia 68/365.



eu vi a morte de perto.

não é uma metáfora, nem exagero literário. foi real, concreto e rápido o suficiente para que tudo coubesse dentro de alguns segundos.

estávamos voltando da praia, quase chegando em casa, quando vimos um acidente. um carro parado, pessoas ao redor, aquela sensação imediata de que algo não estava certo. por instinto eu e o john paramos para ajudar. é uma reação automática. quando você vê alguém precisando de ajuda no meio da rua, simplesmente para.

eram dois jovens, irmãos. um casal. estavam em choque, mas aparentemente bem. ninguém parecia ter se machucado de verdade. demos água, tentamos acalmar, ligamos para a polícia. colocamos a menina no meu carro para ela ficar mais tranquila enquanto esperávamos. o pai deles e outro irmão chegaram logo depois. a polícia não.

passou meia hora.

eu já estava irritado com a demora. tinha sido final de futebol naquela noite, e aquela era uma rota cheia de gente voltando da comemoração. gente que provavelmente tinha bebido. carros passando rápido. sabíamos que havia risco. sinalizamos como pudemos. triângulos, pisca-alerta, gente tentando avisar quem vinha. ligamos de novo, pedimos urgência, falamos que aquilo podia virar outro acidente.

acionamos também a guarda municipal.

imploramos para que viessem rápido.

quando a polícia militar finalmente chegou, começaram a fazer o boletim de ocorrência. e foi exatamente nesse momento que aconteceu.

uma SUV preta apareceu.

veio em alta velocidade. muito alta. eu estava parado ao lado do meu carro, já indo embora. tinha acabado de abrir a porta e estava chamando o john para irmos. quando olhei para a rua vi o carro vindo. meio em zigue-zague, como alguém que provavelmente estava bêbado demais para dirigir em linha reta.

e então ele veio na minha direção.

direto.

não houve tempo para pensar em muita coisa. não teve flash da vida passando pela cabeça. não teve nenhuma dessas cenas que os filmes gostam de mostrar. foi só um segundo de consciência muito clara.

acabou.

eu joguei meu corpo contra o carro. estava entre a porta aberta e a lateral. fechei os olhos.

o impacto veio.

o carro acertou em cheio a porta. blindada. naquele instante a porta tinha duas possibilidades muito simples: fechar e me prensar contra o carro ou abrir.

ela abriu.

retorceu inteira. pedaços de carro voaram para todos os lados, muitos deles em cima de mim. até as coisas que estavam no compartimento da porta voaram. uma garrafinha que estava ali foi parar do outro lado da rua.

a velocidade era tão grande que eu não consegui identificar o carro. nem marca, nem modelo. só uma cor escura, talvez preta, talvez cinza. quando eu percebi o que estava acontecendo ele já estava a poucos metros de mim.

os policiais ainda tentaram ir atrás, mas foi inútil.

todo mundo que estava ali viu.

e depois ficou um silêncio estranho.

as pessoas ficaram brancas. paradas. sem reação. dizem que eu só gritei que estava bem. fisicamente eu estava mesmo. mas só fisicamente.

o carro eu nem olhei direito. a polícia terminou o boletim e o seguro vai resolver o resto depois. aquilo não tinha importância nenhuma naquele momento. fiquei ainda quase duas horas depois esperando até que tudo estivesse resolvido. precisei amarrar a porta pra conseguir ir embora. eu só queria ir pra casa.

minha voz ainda sai falhada quando eu falo. se eu tento contar em voz alta o que aconteceu, começo a chorar.

talvez muita gente leia isso e ache exagero. eu entendo. para quem vê de fora, pode parecer só mais um susto. mas os meus olhos sabem o que viram. o meu coração sabe o que sentiu.

o john disse que me viu morrer.

se aquela porta não abrisse, o carro teria me acertado direto. não tinha meio termo.

eu vivi de novo.

eu realmente acredito que deus colocou a mão ali naquele momento. eu não consigo explicar de outra forma. e eu vou me apegar nisso. no que ficou. no que foi preservado.

o susto vai passar. já começou a passar. tudo passa.

mas hoje eu só precisava escrever.

porque hoje eu sei de uma coisa com uma clareza que talvez eu nunca tenha sentido antes: eu ganhei outra chance.


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