dia 71/365.



o dia passou chovendo. frio. com aquela cara de melancolia pura que alguns dias têm. daqueles em que o céu parece decidido a lembrar a gente que existe uma certa tristeza atmosférica disponível no catálogo da vida. e ainda que muita coisa tenha dado errado durante a semana, eu continuo carregando um certo otimismo meio teimoso, uma esperança que eu sinceramente nem sei muito bem de onde vem. acredito que da fé mesmo. e dos tarja preta.

à noite fui a um evento. e quando eu digo que estava chovendo, não era aquela chuvinha simpática não. parecia que são pedro tinha decidido lavar o quintal com mangueira de pressão. água caindo de balde. um negócio meio apocalipse hídrico. o lugar do evento ficava numa área meio… erma. estrada escura, barro, aquelas situações em que você começa a se perguntar em que momento exatamente da vida você achou que sair de casa era uma boa ideia. e o detalhe importante é que, antes, eu tinha um carro 4×4. o que teria tornado essa pequena aventura bem mais tranquila. só que um bêbado resolveu tirar ele de circulação definitivamente. e quase me tirar também. então lá estava eu, enfrentando estrada ruim e dois atoleiros com um carro que definitivamente não foi projetado para esse tipo de experiência rural.

mas cheguei.

descobrir qual era a minha mesa foi a segunda etapa da noite. porque eu conhecia muita gente no evento, era convidado da pessoa que estava sendo empossada presidente, cumprimentei meio mundo… mas ninguém achou necessário explicar um detalhe muito prático chamado onde exatamente eu deveria sentar. então levou um tempo até eu descobrir. e nesse intervalo de tempo eu fui fazendo o que qualquer pessoa socialmente perdida faz em eventos desse tipo: circular e comer salgados.

só que talvez eu tenha levado essa missão um pouco a sério demais.

a garçonete se chamava josiane, informação que eu considero importante porque quando uma pessoa passa a noite inteira trazendo comida até você, o mínimo que se espera é saber o nome dela. e a josiane aparentemente desenvolveu uma relação de grande generosidade com a minha mesa. todo mundo recebeu um bowl de cada coisa. eu recebi três. depois veio repetição. em algum momento eu comecei a suspeitar que estavam simplesmente trazendo tudo o que sobrava da cozinha para mim. talvez houvesse lá dentro uma foto minha colada na parede com algum tipo de aviso. não sei se era “cuidado” ou “persona non grata”. difícil dizer.

no meio disso tudo também conheci um dono de banco, italiano. e aí aconteceu uma coisa curiosa. depois de anos sem falar italiano, eu resolvi desenferrujar ali mesmo. comecei a conversar com ele no idioma e, de repente, a mesa inteira ficou me olhando com aquela expressão coletiva de surpresa. tipo assim: interessante… então ele tinha um idioma guardado no bolso esse tempo todo e resolveu usar agora. o problema é que falar uma língua depois de anos sem praticar é um exercício de humildade. algumas coisas vieram naturalmente. outras desapareceram completamente da minha memória. então a conversa virou uma mistura elegante de italiano correto com momentos de absoluto improviso linguístico.

e, como sempre acontece em eventos assim, muita gente veio falar comigo durante a noite. gente me cumprimentando com a maior intimidade do mundo. me chamando pelo nome. perguntando coisas. lembrando de conversas que claramente aconteceram em algum momento da história da humanidade… mas que eu não consegui identificar de forma alguma. eu não reconheci praticamente ninguém.

mesmo assim, no meio da chuva bíblica, da estrada de barro, da confusão das mesas, da minha atuação intensa no setor de salgadinhos e da revelação inesperada de um italiano meio enferrujado… a noite acabou sendo boa.


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