
o dia era, tecnicamente, bom. daqueles dias que, se você olhar só para os fatos, para os números, para o que está resolvido ou encaminhado, você diria que deu tudo certo. e deu. dentro do que era possível, dentro do que cabia naquele recorte do dia.
mas isso não significa que eu estava bem. porque eu não estava. acho que ainda não estou, pra ser sincero.
porque existe um tempo diferente dentro da gente. um tempo que não acompanha boleto pago, problema resolvido, resposta que chega. o corpo e a cabeça não viram a chave na mesma velocidade que a vida exige. existe um atraso. uma espécie de eco do que foi vivido, que continua reverberando mesmo depois que, tecnicamente, já passou.
hoje eu comi porque precisava comer. resolvi o que precisava ser resolvido. mantive uma expressão que fosse minimamente compatível com o ambiente. eu sorri porque precisava. aquele funcionamento básico, quase automático, de quem ainda está reorganizando as coisas por dentro enquanto tenta entender o que o mundo espera que eu faça, quando eu não tenho ideia mais do que eu deveria estar fazendo. sim, eu me sinto perdido a esse ponto.
e, em algum momento do dia, sem nenhum anúncio, sem preparação, começaram a surgir respostas. pequenas, mas decisivas. como quando você está tentando destravar uma porta há dias e, de repente, a chave gira sem resistência. não resolve tudo. não abre todos os caminhos. mas já muda completamente a forma como você olha pra frente. porque parece que as coisas resolveram mudar. pro melhor. a fé que eu tanto falei esses dias resolveu dar as caras, um sinal, não sei.
e junto com isso veio uma sensação curiosa. não foi felicidade. não foi euforia. foi algo mais contido. quase silencioso. um alívio pra ser mais exato. é aquele suspiro longo que você dá enquanto joga o corpo em uma cadeira e pensa: é real?
à noite teve o jantar de sempre. as mesmas pessoas, o mesmo ambiente, as mesmas conversas que, em outros dias, talvez passassem quase despercebidas. mas hoje foi diferente. eu estava ali de um jeito mais inteiro. não completamente leve, mas presente. conseguindo rir, acompanhar, existir naquele espaço sem estar completamente engolido pelo que vinha antes.
e talvez isso tenha sido o mais importante do dia.
porque o peso não desaparece de uma hora pra outra. ele vai saindo aos poucos. mas o corpo sente que carregou. a cabeça sente que atravessou. e fica uma espécie de cansaço que não é exatamente físico, nem exatamente emocional. é um cansaço de quem sustentou muita coisa por tempo demais. e isso não passa assim tão fácil e nem tão rápido. não é uma coisa mágica. carregar problemas pesados demais, por tempo demais, deixa marcas.
acho que agora é o momento de recolher. de recuperar o corpo, a mente e a alma. não daquele jeito adolescente maluco, mas de uma forma mais madura e silenciosa.
não no sentido de se afastar do mundo, mas de voltar pra dentro. dar espaço pra que as coisas assentem. deixar que o que ainda está girando encontre um lugar mais estável.
porque depois de uma sequência de dias intensos, silêncio é música, e calmaria é troféu.
eu não venci a guerra, ainda, mas hoje eu venci algumas batalhas.
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