dia 83/365.



eu estava no meio de um dia comum de trabalho quando recebi uma mensagem. nome, banco, número da conta, tudo certo. até a imagem de um cheque. meu cheque. emitido por mim, preenchido por mim, passado por mim. aquele tipo de coisa que, de tão correta, não levanta suspeita imediata. pelo contrário, quase te tranquiliza.

a abordagem era simples: uma inconsistência na assinatura.

e faz sentido, né? porque, quando a informação bate, a gente tende a confiar. não tem por que desconfiar de algo que claramente saiu da sua própria mão. eu olhei, conferi, reconheci. estava tudo certo. e, justamente por isso, eu segui.

a conversa continuou. ligação, explicação, um tom aparentemente normal. nada fora do esperado, pelo menos num primeiro momento. mas tem um ponto curioso nessas situações, que é aquele instante em que alguma coisa começa a sair levemente do lugar. não é algo escancarado. não é um erro gritante. é mais um incômodo. uma insistência um pouco além do necessário. uma urgência que não combina com quem realmente poderia simplesmente dizer “resolva quando puder”.

e foi aí que eu comecei a prestar mais atenção.

porque, se existe um problema real, ele já teria aparecido antes. o cheque já tinha sido compensado. estava tudo resolvido. então por que agora? por que daquele jeito? por que naquele momento?

e, mesmo assim, a conversa seguia.

até chegar no ponto em que pediram que eu acessasse um site. um detalhe pequeno, quase irrelevante pra quem não está prestando atenção, mas que muda completamente tudo quando você para pra olhar com calma. porque, quando a coisa é legítima, ela não precisa te empurrar. ela não precisa insistir. ela não precisa te conduzir passo a passo com urgência.

e, principalmente, ela não parece estranha.

foi nesse ponto que a confiança começou a quebrar. não de uma vez. aos poucos. como quando você percebe que algo que parecia sólido, na verdade, não é.

e aí tudo fez sentido.

não era sobre assinatura. nunca foi.

e talvez o mais desconfortável nem seja o fato de alguém tentar aplicar um golpe. isso, de alguma forma, já virou quase esperado. o que incomoda mesmo é perceber o nível de elaboração. o cuidado. o acesso a informações que, em teoria, não deveriam estar circulando assim. a capacidade de construir uma situação que, por alguns minutos, é totalmente convincente.

e isso muda a forma como a gente se posiciona no mundo.

porque, a partir do momento em que até o que parece legítimo pode não ser, a confiança deixa de ser automática. ela passa a ser filtrada, analisada, questionada o tempo inteiro. e isso cansa. cansa mais do que parece.

cansa ter que duvidar. cansa ter que estar atento. cansa viver com a sensação de que qualquer descuido pode custar caro.

e aí eu fico pensando.

pra onde a gente está indo como sociedade?

em que momento as coisas começaram a ficar assim? em que ponto a gente passou a viver num cenário onde o esforço não é mais só pra construir alguma coisa, mas também pra se proteger o tempo todo?

não aconteceu nada. deu tempo de perceber. deu tempo de sair. ficou tudo bem.

mas a sensação que fica não é exatamente de alívio.

é mais uma consciência meio incômoda de que isso não é exceção.

é só mais um dia normal.


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