
tem dias que começam com uma promessa silenciosa de que as coisas vão se encaixar. aquele tipo de expectativa mais contida, mais realista, de quem só quer que o básico funcione. que as contas fechem, que o dia siga sem grandes desvios, que, pelo menos hoje, não tenha surpresa.
e, por algum tempo, parece que vai ser assim.
as coisas começam a se organizar na cabeça, você projeta, calcula, encaixa. quase dá pra ver o dia acontecendo antes mesmo dele acontecer. uma sensação rara de controle, ainda que momentânea, ainda que frágil.
mas aí o tempo muda.
não de uma vez. não com um estrondo. ele só… muda. aquilo que parecia certo deixa de ser. o que estava alinhado se desloca. não chega a dar errado por completo, mas também não acontece como deveria. fica naquele meio termo incômodo, que não resolve, mas também não desmorona. e você fica tipo: ok, e agora?
e é curioso como esse tipo de situação mexe com a gente.
porque não é o caos absoluto. talvez até fosse mais fácil lidar se fosse. mas é esse quase. esse “era pra ter sido”. esse ajuste de última hora que muda tudo sem parecer grande coisa pra quem olha de fora, mas que, por dentro, exige uma reorganização inteira.
e, ao mesmo tempo, eu percebo que alguma coisa mudou em mim.
porque, há um tempo atrás, um dia como hoje teria um peso muito maior. teria espaço pra desânimo, pra aquela sensação de que nada dá certo, de que tudo sempre escapa no último momento. e talvez até tivesse razão de ser assim.
mas hoje não.
não que não preocupe. preocupa, claro. eu ainda olho, ainda penso, ainda tento entender como reorganizar o que precisa ser reorganizado. o impacto existe. a dúvida também. mas não tem mais o mesmo efeito.
não me derruba.
e eu acho que isso tem muito menos a ver com controle e muito mais a ver com fé.
porque, quando as coisas fogem da lógica, quando os planos deixam de se cumprir como deveriam, quando o esforço não se traduz imediatamente em resultado, chega um ponto em que você percebe que não tem mais o que segurar. não com as mãos.
e é aí que entra a fé.
não aquela bonita, leve, inspiradora. mas aquela que sobra quando todo o resto já foi embora. aquela que não explica, mas sustenta. que não resolve, mas impede que você caia.
e, em muitos dias, é só isso que eu tenho. porque é simplesmente tudo o que me sobra.
e, por mais estranho que pareça, tem sido suficiente pra continuar. pelo menos mais um dia.
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