
dia 85/365
honestamente eu não sei exatamente o que acontece, mas parece que eu sou o mestre da autossabotagem. não de um jeito grandioso, dramático, digno de um filme. é uma coisa muito mais silenciosa, quase imperceptível, que vai acontecendo no detalhe, no cotidiano, nas pequenas decisões que ninguém vê, mas que no fim do dia fazem toda a diferença.
eu desligo o despertador. aliás, nem é um despertador só, são vários, a cada cinco minutos, como se eu estivesse tentando negociar comigo mesmo uma forma mais leve de acordar. mas o que acontece, na prática, é que exatamente por saber que sempre tem um próximo, eu vou desligando todos, um por um, quase no automático. e quando eu percebo, já passou. ou melhor, quando eu percebo, nem lembro de ter percebido. só sei que acordei depois, com aquela sensação de que perdi algo que nem sei exatamente o que era. mas eu sei, claro, era a hora, os compromissos, etc.
e isso não fica só no acordar.
eu falo que é melhor escrever o diário amanhã, durante o dia, com mais calma, com mais tempo, com mais calma. parece até uma decisão responsável. organizada. quase madura. mas o que acontece é que esse amanhã vai sendo empurrado, discretamente, até que, quando eu vejo, já se passaram quatro dias sem escrever. quatro dias que, de alguma forma, deixaram de existir no papel, como se não tivessem sido vividos o suficiente para merecer registro.
e o mais curioso é que não é falta de consciência. eu sei que estou fazendo isso. em algum nível, eu acompanho esse processo acontecendo. vejo a escolha sendo feita, sinto que ela não é exatamente a melhor, mas ainda assim sigo. não é uma perda de controle completa, é quase um acordo silencioso comigo mesmo, como se uma parte minha estivesse sempre tentando aliviar o peso da outra, mesmo que isso custe um pouco do que eu gostaria de construir.
talvez seja cansaço. talvez seja excesso. talvez seja só a forma que eu encontrei de lidar com tudo o que vem acontecendo ao mesmo tempo, sem precisar encarar tudo de frente o tempo inteiro. porque manter constância exige uma energia que nem sempre está disponível, e, quando não está, a gente começa a negociar com a própria disciplina como quem negocia prazo de boleto: empurra mais um dia, depois mais um, e quando vê, já virou um padrão. e claro, você paga com juros.
mas tem uma coisa que eu não consigo ignorar.
por mais que eu escorregue nesses pequenos pontos, por mais que eu atrase, adie ou desorganize, eu sempre volto. pode não ser no tempo ideal, pode não ser do jeito que eu gostaria, mas eu volto. e talvez isso diga mais sobre mim do que todas as vezes em que eu falhei no caminho. porque hora ou outra as coisas precisam ser feitas.
e, por enquanto, eu ainda estou aqui. escrevendo. percebendo. tentando entender. e, de alguma forma, tentando fazer diferente, mesmo que seja aos poucos. mesmo que seja só hoje.
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