
domingo foi lento. daquele tipo que não pede nada, não cobra nada, não exige versão nenhuma de você além da mais simples. eu e o john acordamos sem pressa, ficamos mais tempo do que devíamos na cama, descemos pro almoço ainda meio desligados, como se o dia tivesse começado sem avisar direito.
a gente estava mais quieto. não era tristeza, nem exatamente cansaço, apesar de um aniversário no sábado à noite ter sugado todas as nossas energias. era só vontade de não fazer esforço nenhum pra existir. de não precisar ocupar o tempo com alguma coisa útil, produtiva, interessante. só ficar. o que, na prática, é muito mais difícil do que parece. porque quando você está acostumado com a rapidez dos dias, com a pressão da sociedade em ser, ter e fazer o tempo todo, o simples estar pode incomodar mais do que a gente se dá conta.
e foi no meio disso que chegou um convite de casamento.
não teve reação exagerada, nem reflexão imediata. mas ficou ali. porque essas coisas sempre ficam. não pelo evento em si, mas pelo que ele representa. alguém escolhendo, assumindo, organizando a vida de um jeito que parece claro, definido, quase linear quando visto de fora.
e eu, naquele momento, estava exatamente no oposto disso. sem plano pro domingo, sem vontade de resolver nada, sem nenhuma sensação de avanço concreto. só parado.
ou pelo menos era isso que parecia.
porque a gente cresce ouvindo que a vida anda quando alguma coisa grande acontece. quando tem mudança, anúncio, conquista, marco. quando dá pra apontar e dizer “agora sim”. e todo o resto acaba ficando com cara de intervalo, de espera, de tempo morto. de coisa vazia que não se posta em redes sociais, enquanto todo mundo está com uma série de fotos de um dia incrível esfregando na tua cara assim que você abre o celular.
só que, se eu paro pra pensar com um pouco mais de honestidade, talvez esse seja o maior engano.
porque eu e o john estamos vivendo uma coisa que muita gente ainda está começando a planejar. só que não tem cerimônia, não tem convite, não tem foto bonita pra provar. tem rotina. tem escolha repetida. tem dias como esse, em que a gente só divide o mesmo espaço em silêncio, sem precisar preencher nada. e isso, de algum jeito, também é construção.
só não é uma construção que aparece, e talvez por isso a gente duvide tanto dela.
e talvez seja por isso que, às vezes, parece que a gente está parado enquanto o mundo anda. porque o mundo só reconhece o que faz barulho. o que é anunciado, comemorado, registrado. o resto fica invisível, até pra gente mesmo.
mas a vida não pausa quando a gente desacelera. ela continua acontecendo em outro tipo de ritmo, menos evidente, menos validado, mas nem por isso menor. só mais difícil de medir.
e acho que o desconforto vem daí.
não é sobre estar atrasado. é sobre não conseguir enxergar movimento onde não tem aplauso. nem curtidas.
domingo não teve nada de especial pra quem olha de fora.
mas, se eu for sincero, teve mais verdade ali do que em muito dia que parece importante no instagram.
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