dia 89/365.



segunda, e a sensação de que o dia conspira contra mim. como se tivesse alguma coisa fora do lugar desde o começo, um ruído baixo que vai atravessando tudo sem se explicar direito. não aconteceu nada grande, nada que justificasse esse incômodo de forma objetiva. foi um acúmulo de pequenas coisas, dessas que isoladamente não significam quase nada: um atraso pequeno, uma resposta que não vem, algo simples que não sai como deveria. mas quando elas começam a se acumular, uma depois da outra, ganham um peso que não é delas, e o dia inteiro começa a parecer contaminado por alguma coisa difícil de nomear.

o problema é que, quando esse tipo de sensação aparece cedo, ela muda a forma como você atravessa o resto do dia. não é mais só sobre o que acontece, mas sobre como você passa a interpretar tudo. qualquer detalhe vira confirmação de que “hoje não vai”, qualquer pequeno erro parece maior do que realmente é, qualquer desvio vira quase uma prova de que existe algo contra você. e, sem perceber, você vai se ajustando a esse roteiro. responde com menos paciência, antecipa problemas que ainda nem existem, entra num estado meio defensivo, como se estivesse se preparando para algo que nem sabe exatamente o que é.

e talvez seja aí que as coisas começam a se distorcer de verdade. porque o dia, em si, continua sendo só um dia. as coisas acontecem no ritmo normal, com seus acertos e erros comuns. mas a leitura muda. e essa leitura vai moldando a experiência inteira. não é que tudo esteja dando errado, é que tudo passa a ser visto a partir de um lugar onde já se espera que dê. como se, em algum momento muito cedo, quase imperceptível, eu tivesse escolhido acreditar que aquele dia não ia funcionar, e a partir disso comecei a encaixar cada pequeno acontecimento dentro dessa ideia, como peças de um quebra-cabeça que eu mesmo estava montando, sem perceber que a imagem já estava distorcida desde o começo.

é desconfortável perceber isso porque tira a sensação confortável de que existe algo externo desorganizando tudo. é mais fácil pensar que o dia veio errado, que a segunda chegou pesada, que o mundo está fora do eixo. mais fácil do que admitir que a segunda nunca foi o problema. só é mais fácil culpá-la, entende? mais fácil do que admitir que, muitas vezes, o que pesa não é o que acontece, mas o jeito como a gente sustenta aquilo dentro da cabeça. porque, uma vez que essa narrativa se instala, ela se alimenta sozinha. você começa a confirmar o que já acreditava, mesmo que a realidade não esteja exatamente acompanhando. porque, no fim, nada saiu exatamente do lugar. as coisas seguiram como sempre seguem. poderia ser uma quarta-feira, e ainda assim eu encontraria algum jeito de sentir o mesmo peso.

no fim, o dia não conspirou contra mim. ele só seguiu como qualquer outro. fui eu que, sem perceber, fui organizando tudo de um jeito que fizesse sentido com a sensação que eu já carregava desde o começo.


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