
ontem eu não falei, mas alguma coisa começou a desandar. não foi um pensamento específico, nem um problema isolado que eu pudesse apontar com clareza. foi mais sutil e, ao mesmo tempo, mais incômodo do que isso. um aperto no peito que apareceu sem pedir licença e ficou, uma sensação de desencaixe difícil de explicar, como se eu estivesse levemente fora de mim, acompanhando o dia de longe, sem conseguir realmente entrar nele. e isso não veio do nada absoluto. eu estou passando por problemas, e não são leves. são questões que vão se acumulando, desgastando, ocupando espaço, mesmo quando eu tento não pensar nelas o tempo todo. é aquele tipo de peso que não grita, mas também não vai embora, e que, aos poucos, começa a influenciar tudo ao redor.
e hoje isso continuou. talvez até um pouco mais intenso. porque quando a gente já acorda com essa sensação, ela muda completamente a forma como o dia é vivido. não é só sobre o que acontece, é sobre como tudo passa a ser sentido. coisas simples exigem mais esforço, decisões pequenas parecem maiores, qualquer imprevisto ganha uma proporção que não teria em um dia comum. e, no meio disso, ainda tinha um detalhe que eu não posso ignorar: um dos meus remédios tinha acabado e eu fiquei dois dias sem. não deveria causar um impacto tão grande assim, pelo menos não de forma isolada. mas talvez não fosse isolado. talvez tenha sido exatamente o que faltava para um equilíbrio que já estava fragilizado ceder um pouco mais. talvez tenha sido o empurrão silencioso que me colocou numa inclinação perigosa, dessas que você só percebe quando já começou a escorregar.
o mais difícil é que não existe uma resposta clara. não dá pra separar com precisão o que é químico, o que é emocional, o que vem dos problemas reais que eu estou vivendo e o que é da própria doença. e essa mistura confunde. porque, quando tudo se embaralha, a sensação é de perda de controle. eu faço tratamento, eu me cuido, eu levo isso a sério. eu sei que depressão não é escolha, não é falta de esforço, não é algo que se resolve com uma decisão bonita no fim do dia. mas também sei, por experiência, que existe um ponto em que, se eu simplesmente me deixo ir, eu afundo. não de uma vez, não de forma dramática, mas aos poucos, de um jeito silencioso e perigoso, em que a vontade vai diminuindo, a perspectiva vai encurtando e tudo começa a parecer distante demais para valer o esforço.
e hoje eu senti que estava chegando perto disso. não era o fundo do poço, mas era um caminho que eu reconheço, e reconhecer esse caminho não é confortável. porque eu sei onde ele pode dar. eu já estive em lugares piores, já me vi sem saída, já precisei me reconstruir mais de uma vez. e talvez seja justamente isso que, de alguma forma, me impede de ir até o fim dessa queda de novo. não porque eu seja forte o tempo todo, não porque eu tenha controle sobre tudo, mas porque eu sei o preço de me deixar levar completamente.
então, no meio desse dia arrastado, pesado, confuso, eu fiz o que estava ao meu alcance. não resolvi os problemas, eles continuam aqui, do mesmo tamanho, talvez até maiores do que eu gostaria de admitir. não “venci” nada, não virei uma chave mágica, não saí bem de uma vez. mas eu também não me abandonei. e, olhando com honestidade, isso já é muita coisa. eu levantei a cabeça mesmo sem vontade, tentei não alimentar tanto os pensamentos que estavam me puxando para baixo, busquei, mesmo que de forma meio forçada, algum ponto de luz no meio de tudo aquilo. coloquei música, levantei a cabeça e falei em voz alta: chega! eu preciso mudar essa vibração. eu preciso animar nem que seja um pouco. e funcionou.
eu fui dormir melhor do que acordei. não bem, não leve, não resolvido. mas melhor. e, em dias como esse, “melhor” já é uma vitória imensa pra quem estava totalmente apático. porque, no fundo, o que me sustenta não é a ausência de problema, nem uma vida organizada, nem a garantia de que tudo vai dar certo. é a certeza de que eu já passei por coisas piores e, ainda assim, continuei. é a fé de que o amanhã vai ser diferente, mesmo quando o hoje pesa mais do que deveria. é saber que existe alguma coisa em mim que, por mais cansada que esteja, ainda escolhe não desistir. eu já recomecei muitas vezes. e, se for preciso, eu recomeço de novo.
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