dia 93/365.



sexta-feira. feriado. e, pela primeira vez em dias, semanas talvez, eu senti que o tempo não estava contra mim. chegamos de madrugada em Ilhabela, ainda meio cansados da estrada, mas com aquela sensação silenciosa de “agora foi”. como se, só de ter chegado, alguma coisa já tivesse começado a mudar.

e mudou. o dia amanheceu absurdo de lindo. não é exagero. foi aquele tipo de manhã que parece cenário de filme, luz perfeita, céu aberto, tudo convidando pra fora. e eu acordei cedo. cedo de verdade. mais cedo do que acordo pra trabalhar. sem esforço, sem peso, sem aquela resistência interna. eu só levantei.

a gente foi pra praia. eu, o john e nossos amigos. e ali… ali já era outra vida. outro ritmo, outro ar, outro jeito de existir. o lugar era incrível, daqueles que fazem você questionar por que passa tanto tempo longe disso. e olha que eu nunca fui fã de praia simplesmente por ser, tecnicamente, um pouco alérgico à areia. mas ali era o paraíso.

mas nem tudo é simples, claro. era sexta-feira santa. e tem toda aquela questão de não comer carne. eu nunca fui católico, então, pra mim, isso sempre pareceu meio distante, meio abstrato. não faz parte da minha construção, mas ainda assim… respeito. então não comi. e é engraçado como a mente funciona: parece que é só alguém dizer que não pode que aquilo automaticamente vira a melhor coisa do mundo. de repente, tudo que tinha carne parecia maravilhoso, irresistível. enquanto isso, justamente os peixes e frutos do mar que eu amo pareciam… sem graça. como se o gosto tivesse ido embora junto com a permissão.

e, pra ajudar, o cardápio do lugar não colaborava muito. poucas opções, nada muito empolgante. e as melhores coisas? carne, claro. quase irônico.

mesmo assim, isso não estragou o dia. longe disso. a gente aproveitou. de verdade. conversas leves, risadas, aquele tipo de compania que não exige esforço. eu não estava tentando me sentir bem. eu simplesmente estava.

no fim da tarde, o tempo virou de um jeito quase cinematográfico. uma chuva pesada, violenta, daquelas que fazem barulho, que escurecem o céu de repente, que dão a sensação de que alguma coisa muito maior está acontecendo. por alguns minutos, parecia que o mundo podia acabar ali. e não é figura de linguagem. é aquela impressão real, quase física.

mas não acabou. a luz até foi embora por um instante, mas voltou. como sempre volta (mas depende).

à noite, fomos jantar num food park. e ali tem um trailer de polvo que, sinceramente, é absurdamente incrível. mas eu acabei indo no japonês. e talvez tenha sido uma das melhores decisões do dia. eu comi um sashimi de atum que, sem exagero, foi um dos mais frescos e deliciosos que eu já provei na vida. aquele tipo de comida que você percebe na hora que é diferente.

conheci gente nova, conversei, ri. coisas simples, mas que, naquele contexto, ganham outro peso.

cheguei exausto. cansado de verdade, físico. mas diferente daquele cansaço dos últimos dias. esse era um cansaço bom. de quem viveu.

e o mais importante: eu não pensei nos problemas. não fiquei antecipando, não fiquei revivendo, não fiquei preso em nada. eu só vivi o dia. e talvez seja isso que estava faltando. não solução, não controle, não resposta. só vida acontecendo, sem filtro, sem peso, sem lembrar de boleto atrasado.

no meio de tudo isso, uma sensação ficou muito clara, quase como uma certeza tranquila: eu acho que eu nasci pra isso.


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