dia 95/365.



acordei cedo. mas, dessa vez, diferente dos outros dias, eu me permiti ficar mais um pouco. sem culpa, sem pressa, sem aquela sensação de que eu precisava levantar pra resolver alguma coisa. a gente já tinha combinado: hoje não era dia de sair. era dia de deixar o tempo mais solto, mais leve. era domingo. era páscoa. e, de algum jeito, isso já mudava o ritmo de tudo.

a casa estava viva. cada um fazendo alguma coisa, sem caos, sem correria. a nica resolveu fazer o feijão vermelho dela, aquele que já tinha virado uma lenda, mas que dessa vez ia sair da imaginação do coletivo e virar uma realidade. o kiko assumiu a churrasqueira, cuidando da carne com aquela calma de quem sabe exatamente o que está fazendo. o john organizando tudo, como sempre. e eu… eu fui dar apoio moral e fiquei encarregado das orações antes do almoço. um gesto simples, mas que, naquele contexto, parecia encaixar perfeitamente no dia.

a gente funciona bem junto. de um jeito natural, sem esforço. as coisas acontecem, cada um ocupa seu espaço, e, quando você percebe, está tudo pronto, tudo fluindo.

a roberta e o fábio ainda estavam cansados do dia anterior, chegaram mais tarde, no ritmo deles. e isso também fez sentido. ninguém estava tentando acelerar ninguém. o dia estava sendo respeitado como ele queria ser.

na hora do almoço, eu simplesmente perdi a noção. comi demais. sério. parecia que eu estava compensando alguma coisa, ou talvez só aproveitando sem filtro. aquela fome meio exagerada, meio engraçada depois. corpo relaxado demais, guarda baixa, vontade de repetir sem pensar muito.

depois, já bem no final da tarde, o corpo pediu pausa de novo. e eu fui. dormi mais um pouco, daquele jeito leve, sem compromisso, só porque dava. acordei devagar, arrumei minhas coisas, já com aquele sentimento conhecido começando a aparecer lá no fundo. a volta sempre chega antes de acontecer de fato.

já de noite, a gente saiu pra jantar um crepe na beira da praia. nada elaborado, nada planejado demais. só mais um momento juntos, mais uma conversa, mais algumas risadas. o mar ali perto, o som constante, como se estivesse acompanhando a despedida sem pressa.

e, em algum momento, a gente decidiu subir. simples assim. sem cerimônia, sem alongar demais. como se todo mundo soubesse que o dia já tinha sido suficiente.

talvez a páscoa esteja nisso também. não só em significado, nem em tradição, nem em explicação. mas nesses pequenos recomeços silenciosos. nesses dias em que a gente desacelera, respira, vive, e, sem perceber, se reorganiza por dentro.

e eu senti isso em mim. não como uma mudança brusca, nem como uma virada que resolve tudo de uma vez. mas como um ajuste fino. como se alguma coisa tivesse saído do lugar errado e, nesses dias, encontrado um espaço melhor pra ficar. minha cabeça mais silenciosa, meu corpo mais leve, uma sensação de ajuste que eu vinha perdendo sem perceber.

os problemas continuam existindo. nada foi magicamente resolvido. mas eles já não ocupam o mesmo tamanho dentro de mim. não tomam todos os espaços. não dominam tudo.

eu voltei a respirar melhor. e só isso já muda tudo.


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