dia 96/365.



a volta sempre chega antes de acontecer. eu já tinha sentido isso no dia anterior, aquela antecipação silenciosa de que o ritmo ia mudar de novo. e mudou. mas não do jeito que eu imaginava.

o dia começou cedo, ainda com uma sensação meio misturada do que tinham sido os últimos dias. fui trabalhar, tentei adiantar tudo o que dava, organizar o que estava pendente, colocar a cabeça de volta na rotina. mas o dia não ia ser comum. tinha um evento mais tarde. e não era qualquer evento.

era o mauá com elas. e, de algum jeito que ainda me parece meio difícil de acreditar, eu não estaria ali só assistindo. eu estava participando. representando, levando um presente que simbolizava a cidade, e, principalmente, falando. falando de verdade.

eu não sei em que momento da vida isso passou a ser possível.

cheguei nervoso. nervoso de verdade. daquele tipo que o corpo não disfarça. tremendo, meio perdido, tentando entender onde eu me encaixava naquele cenário. e, sem querer, eu acabei chegando praticamente junto com a Luiza Trajano. o tipo de coincidência que não ajuda em nada quando você já está assim.

e aí veio o momento.

eu subi e falei. mas não foi uma fala ensaiada no sentido frio. foi algo que veio de um lugar mais verdadeiro, mais direto. eu não estava tentando impressionar ninguém. eu só estava sendo honesto. e isso chegou nas pessoas. dava pra perceber. aquele silêncio atento, aquelas reações que não precisam de explicação. depois me disseram também, que tinha gente emocionada, que foi forte. e ela ouviu.

depois, ficou um tempo falando comigo, elogiando, perguntando, presente de verdade na conversa. em algum momento, comentaram que ela queria falar comigo com mais calma, mas não deu. muita gente, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. e tudo bem.

porque o dia ainda não tinha terminado.

depois do evento no teatro, teve outro na câmara municipal. e, no meio disso tudo, a vida real não esperou. eu voltei pra casa correndo, terminei de resolver coisas do trabalho, fiz pagamentos, troquei de roupa. parecia que eu estava vivendo dois dias dentro de um só. um completamente fora da rotina, outro totalmente preso a ela.

na câmara, eu consegui chegar até ela de novo. falei direto, sem rodeio, quase no impulso: eu sou o garoto que te deu o presente de porcelana e não consegui tirar uma foto com a senhora. posso tirar agora?

ela podia só ter aceitado, tirado a foto e seguido. como faz com todo mundo.

mas não foi isso que aconteceu.

ela chamou a assistente dela. não o meu celular. o dela. pediu pra me passarem o telefone. dela. e disse que queria que a equipe visitasse a minha empresa.

eu fiquei alguns segundos sem entender direito o que tinha acabado de acontecer.

e, como se isso não fosse suficiente, mais tarde ainda recebi uma mensagem dela no whatsapp. dizendo que tem um neto chamado enrico.

tem coisas que não dá pra planejar. não dá pra antecipar. não dá nem pra explicar direito.

eu saí de três dias tentando só respirar, tentando me reorganizar por dentro, tentando encontrar um pouco de leveza… e, quando voltei, a vida me colocou exatamente diante de uma das maiores referências que eu tenho como empresário e como ser humano.

e, dessa vez, eu não me senti pequeno ali.

eu me senti pronto.

não perfeito, não resolvido, não sem medo.

mas pronto.


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