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     Muitos dias se passam na nossa vida. Alguns vão no automático de maneiras que nem percebemos de onde vieram e para onde foram. Ela acordou de manhã um pouco atrasada, lhe faltava ânimo para encarar algumas coisas. Beijou o namorado e tomou um café preguiçoso. Colocou um lenço meio desajeitado na cabeça e uma maquiagem simples. Ela era simples nas atitudes e gigante no coração. Foi pro trabalho como um sábado normal. Almoçou com amigos. Se despediu na escada como de costume, lançou um eu te amo sincero e recebeu um abraço e juras de amor. Ninguém sabia. Ninguém imaginava que o tchau era um adeus.

     Curtimos algumas festas de rua, um carnaval cheio de confetes e risadas. Falávamos miga sua louca! ou porque eu não sou nenhuma vagabunda, expressões que ficarão para sempre comigo. Tomamos Sol caminhando em avenidas, jantamos juntos batendo taças e portas, fomos a shows, ao céu e ao fundo do poço juntos. O câncer veio sem aviso, assim como quem não gosta muito de atrapalhar mas acaba deixando um estrago. Todos nos unimos e laços eram cada vez mais estreitos. Éramos família. Encaramos a batalha com sorriso no rosto e lágrimas no travesseiro. Você sabe que a vida vai e vem, né? Houveram dores, choros, risadas e a vida foi seguindo o rumo. Alguns problemas iam se somando a outros e o carrinho de mão da vida ficava um pouco mais pesado de ir levando em frente, mas estávamos todos juntos, não? Nos demos as mãos para continuar caminhando lado-a-lado. E mesmo em meio às lágrimas, haviam os sorrisos. Os jantares e almoços continuaram, as cocas-zero, as sobremesas.

     E assim o mundo amanheceu um pouco mais cinza apesar do Sol. A vista embaçava sem querer. Não era exatamente um cisco que caía no olho, nos dois, era uma saudade reprimida e uma dor daquelas bem doídas. Todas as memórias passavam pela cabeça como um flashback de amor, nostalgia e dor. Queria que você pudesse ter visto, mas estávamos todos juntos, como sempre, como você sabia que estávamos, ao teu lado. Talvez você devesse ter visto mais isso, reparado mais nas coisas boas que haviam ao teu redor. Mas agora nada mais adianta. Não tem um botão retroceder, na vida, para que a gente possa se sentar no sofá e assistir algumas coisas pra, quem sabe, te convencer de que ainda existe algo para se lutar, que nenhuma dor é eterna, que nenhum problema é impossível. Como você não viu as pegadas na areia do teu lado? Feitas por um exército de pessoas meio acanhadas em demonstrar, mas que te amavam e te amam com todas as células do corpo. Não existem mais palavras ou nada que possa ser dito, você se foi. Ficou apenas algumas linhas escritas com caneta e tristeza. Pequenas lembranças que foram deixadas por você aqui na minha vida. Tantos lugares que havíamos planejado ir, tantos sonhos que tecemos juntos quando ninguém podia nos ouvir. A dor passa. A minha vai ter de passar, então porque você não percebeu que a tua também passaria? Faltava pouco e agora vai faltar uma vida inteira, aqui, desse lado.

     Nada para, você sabe, e teremos todos que continuar a caminhada olhando fotos e vasculhando memórias que doem um pouco o peito. Você fará uma falta que jamais será preenchida. Esse buraquinho que fica no nosso coração, não tem nada que possa tampar e vou continuar procurando tua mão para agarrar e teu abraço gostoso e apertado, mesmo sabendo que não vou mais encontrar. Eu poderia escrever um livro só sobre você. Só sobre a tua vida e o nosso amor. Família, né? Muito além do sangue. Fruto da afinidade e do amor incondicional. Nunca deixaremos de te amar, mesmo estando agora em lados opostos da vida. Mas tudo bem, fique bem e espere por nós que nossa caminhada não acabou não. Você pode ter se livrado da dor, mas jamais se livrará dos amores. Espera que um dia a gente também faz a travessia e quando você menos esperar, aí desse lado que você está agora, todas as pegadas irão se juntar às tuas novamente e nossas mãos terão uma eternidade inteirinha pra seguir unidas.

Te amei, te amo e te amarei, seja aqui ou aí. Adeus? Não, não. Até breve!

c.e.


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