o mundo ficou torto.

meu pai morreu. essa frase parece errada. não no sentido moral ou metafísico, mas estruturalmente errada, como uma peça de um quebra-cabeça que não encaixa. como se a minha língua não estivesse acostumada a formar essas palavras juntas. meu. pai. morreu. 

desde então, tudo parece um pouco fora do lugar. não dramaticamente, não como se o mundo tivesse implodido ou como se um buraco negro tivesse sugado tudo. mas como se alguém tivesse desmontado a minha realidade e montado de novo, só que com peças sobrando. alguma coisa ficou mal encaixada. 

é uma sensação difícil de explicar. imagine que você tem um cérebro. ok, talvez isso não seja tão difícil de imaginar, mas imagine que entre ele e o crânio existe um colchão fino, algo que faz com que tudo fique meio solto. como se o que eu vejo e sinto não estivesse totalmente ancorado na realidade. como se tudo ao redor fosse um holograma ligeiramente desalinhado, um sonho do qual eu não consigo acordar. 

não é dor. ou talvez seja, mas de um jeito que não parece com a dor que eu conhecia antes. não é aquela tristeza escancarada, aquela coisa de chorar descontroladamente no chuveiro enquanto toca uma trilha sonora trágica na minha cabeça. é mais como uma ausência sussurrante. um eco dentro de mim. 

eu vejo as pessoas continuando suas vidas e penso: como é que elas não percebem que o mundo ficou torto? que tem um erro de sistema acontecendo? que alguém essencial simplesmente saiu do código da minha existência e agora tudo ficou bugado? 

talvez seja assim que o luto funciona. uma distorção sutil, um deslocamento, um atraso de alguns segundos entre o que acontece e o que eu sou capaz de sentir. talvez, com o tempo, as peças se encaixem de novo. ou talvez eu só aprenda a andar nesse mundo meio torto, meio errado, meio faltando alguma coisa que nunca mais vai voltar. 

você não quer que a dor fique, mas também não quer que ela vá embora. só que a verdade é que ela não vai a lugar nenhum. a gente é que aprende a carregar. aos poucos, a ausência vira saudade. e a saudade, um peso suportável. 

mas algo em mim quebrou. e não foi só a minha vida—foi a vida inteira. como se o mundo tivesse rachado ao meio e eu estivesse de um lado, tentando entender como seguir adiante sem a parte que fazia tudo ter sentido. 

não é que meu pai vá desaparecer. ele está em mim. no jeito que seguro um copo d’água, no tom da minha risada, nos traços que o espelho me devolve quando acordo. ele é as palavras que escapam sem querer, as memórias que o tempo não pode corroer. mas isso não muda o fato de que algo essencial foi arrancado da minha existência, e o espaço que ele deixou não pode ser preenchido. 

a gente não supera uma perda dessas. a gente só aprende a viver em ruínas. a moldar o dia a dia ao redor das ausências. a reconstruir um caminho sobre os escombros, sabendo que, lá no fundo, algo se perdeu para sempre. 

e talvez seja isso. a vida continua, mas nunca da mesma forma. nunca com o mesmo brilho, nunca com a mesma textura. nunca sem aquele instante em que eu vou olhar pro lado e lembrar que deveria haver um “pai” ali. 

mas eu sigo. porque foi ele que me ensinou a seguir. 


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