
acordei no guarujá, no apartamento de amigos. vista bonita, daquelas que fazem parecer que o mundo está exatamente onde deveria estar. céu aberto, mar calmo, luz entrando pela janela como se fosse só mais um sábado comum. mas não era. era um dia marcado.
descemos para a marina ainda com aquela sensação de que tudo estava acontecendo um pouco fora do eixo. esperamos um amigo chegar de helicóptero, o que por si só já cria uma atmosfera meio cinematográfica, quase triunfal. hélice girando, vento no rosto, aquele barulho que anuncia chegada. meu pai teria gostado da cena. ele sempre gostou de coisas grandiosas, organizadas, com certo ar de importância.
fomos para o barco. alguns amigos seguiram em outro, nos acompanhando. tinha uma sensação estranha de cortejo silencioso, ainda que ninguém estivesse em silêncio absoluto, muito pelo contrário, minha mãe preparou uma playlist com as músicas que meu pai gostava. tudo era símbolo. seguimos até um ponto da marinha. era um lugar que combinava com ele. aquilo fazia sentido. não foi aleatório.
a urna era de papelão biodegradável. simples. dentro, as cinzas e as rosas. pétalas espalhadas, como se a gente estivesse tentando suavizar o que, no fundo, é impossível suavizar completamente. foi pesado. houve um momento em que o peso não estava nas mãos, estava no peito. mas também foi bonito. havia respeito, havia cuidado, havia intenção. simbólico. a palavra talvez seja essa. não era só um gesto prático. era um rito. uma forma de encerrar algo que já vinha sendo encerrado há algum tempo, mas que ali ganhou forma.
o mar recebeu. e o mar não faz drama. ele simplesmente incorpora. e fez um desenho com as pétalas, como se elas dançassem. era triste e lindo ao mesmo tempo. brindamos, rezamos, cantamos, choramos.
voltamos para a marina. almoçamos ali mesmo. conversa misturada com silêncio, riso tímido com olhar distante. meus sobrinhos voltaram para casa de helicóptero, porque nem tudo precisa ser triste o tempo inteiro. a vida, curiosamente, consegue colocar leveza no meio do que é definitivo.
subimos depois. chegando em casa eu fui direto dormir. não era só sono físico. era o corpo desligando depois de um dia inteiro sustentando emoções que não são baratas. acordei mais tarde e fiz o jantar para a minha mãe, como de costume. um lanche simples. nada elaborado. mas fiz com cuidado. tentei fazer algo confortável para ela. talvez seja isso que sobra depois dos grandes gestos simbólicos. os pequenos cuidados práticos.
no fim, o dia foi difícil. mas foi digno. não foi pesado, mas foi bonito do jeito que eu tenho certeza de que ele teria gostado. e eu ainda tenho a sensação de que ele está e estará sempre a um abraço de distância. porque ele nunca deixará de viver enquanto eu o amar.
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