dia 61/365.



sabe quando parece que nada aconteceu, mas se você parar dois minutos para listar, descobre que viveu quase uma tese de doutorado sobre sobreviver ao cotidiano? então, esse foi o meu dia.

a maioria dos meus dias é assim. se alguém me pergunta “como foi o dia?”, a resposta automática é “normal”. mas normal para quem administra fábrica com caixa apertado, acompanha guerra internacional, troca wifi da mãe e ainda está se adaptando a um celular que dobra no meio talvez não seja exatamente normal.

hoje foi difícil na fábrica. aliás, hoje e provavelmente amanhã vão ser daqueles dias que exigem criatividade financeira, respiração controlada e fé quase contratual. falta de dinheiro não é um conceito abstrato, ela tem peso específico. mas eu consegui manter uma certa calma. não sei se é maturidade ou cansaço. talvez os dois. em algum momento a gente aprende que desespero não paga boleto.

a guerra dos eua com o irã continua. como começou no sábado, foi hoje que o mercado resolveu sentir oficialmente. aquela confusão habitual. pânico generalizado, gráficos nervosos, especialistas surgindo como se estivessem esperando a oportunidade há meses. sempre começa assim. depois vai dando uma acomodada. mesmo que a guerra, de fato, esteja só começando e ninguém pareça estar exatamente ganhando nada com isso. é curioso como o mercado reage mais rápido que as pessoas. ou talvez as pessoas reajam através do mercado. não sei. eu só sei que, enquanto isso, eu estava aqui tentando equilibrar o meu próprio front interno.

continuo apanhando do celular novo. a tela é diferente, menor. o gesto de abrir e fechar ainda exige uma pequena coreografia mental. às vezes eu fecho quando queria abrir, abro quando queria fechar e fico olhando para ele como se ele fosse o responsável por tudo isso. preciso me adaptar. aparentemente, não basta sobreviver a luto, guerra e crise financeira. é preciso também reaprender a usar tecnologia dobrável.

troquei o wifi da casa da minha mãe. pelo menos um deles. saiu “pierro”, entrou “leda”. parece insignificante. é só um nome numa rede. mas quando um nome sai, alguma coisa sai junto. e quando outro entra, ocupa um espaço. é pequeno, mas não é pequeno. essas coisas vão acontecendo devagar, quase sem barulho. quem sabe o que significa talvez sinta também.

e tem o sol. no dia do barco eu talvez tenha tomado um pouco mais de sol do que deveria. talvez eu tenha pensado que não ia tomar sol e, portanto, não passei protetor. resultado: se apagar a luz, eu acendo. estou oficialmente em fase de esfarelamento. não é descascar elegante. é esfarelar mesmo. estou uma mistura de dálmata com zebra. cada parte do corpo decidiu adotar uma tonalidade própria. é quase artístico, se não fosse levemente constrangedor. aparentemente eu adquiri uma cor neon. sim, eu pareço um marca texto.

no fim, o dia parece banal. mas não foi. teve dinheiro curto, guerra longa, tecnologia nova, símbolo antigo e pele lembrando que o corpo também registra os acontecimentos.

sabe quando parece que nada aconteceu? pois é. às vezes aconteceu coisa demais.


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