dia 97/365.



talvez a semana tenha começado oficialmente hoje, porque ontem… eu nem sei se conta. foi um daqueles dias que não cabem muito bem na rotina, que ficam meio deslocados na linha do tempo, como se tivessem acontecido fora do fluxo normal das coisas. e, de certa forma, foi mesmo. olhando agora, com um pouco mais de distância, eu consigo ver que ontem foi um marco. não necessariamente porque mudou tudo, mas porque mudou alguma coisa importante dentro de mim.

e hoje, como sempre, a realidade bateu à porta.

não de forma agressiva, nem caótica, mas presente. constante. lembrando que a vida não é feita só de momentos extraordinários, nem de dias perfeitos à beira da praia, nem de encontros improváveis que parecem roteiro de filme. existe o depois. existe o cotidiano. existem as responsabilidades que não desaparecem só porque você viveu algo grande no dia anterior.

e eu senti isso.

ontem eu falei, com uma certa convicção, que eu nasci pra aquela vida. praia, leveza, tempo mais lento, dias que escorrem sem peso. e talvez eu tenha mesmo nascido. mas alguém esqueceu de avisar a minha conta bancária. os boletos continuam chegando. os compromissos continuam existindo. a estrutura que sustenta tudo isso não se organiza sozinha.

e não tem revolta nisso. tem constatação.

porque, ao mesmo tempo que existe esse contraste, também existe uma outra coisa que começou a aparecer com mais clareza: talvez não seja sobre escolher uma vida ou outra. não é sobre fugir completamente da realidade pra viver só o que é leve, nem se afundar no peso das responsabilidades a ponto de esquecer que existe mais do que isso.

talvez seja sobre construir um meio possível.

hoje não teve praia, não teve cenário bonito, não teve aquele silêncio bom que eu vivi nos últimos dias. teve trabalho, teve coisa pra resolver, teve atenção dividida, teve cobrança interna. mas teve também uma diferença sutil na forma como eu atravessei tudo isso.

eu não estava no mesmo lugar de antes.

alguma coisa ficou. daquele respiro, daqueles dias mais leves, daquela sensação de ajuste, da brisa do mar. não o suficiente pra transformar tudo, não o suficiente pra fazer o dia ser fácil. mas o suficiente pra não deixar tudo pesar do mesmo jeito.

e talvez seja isso que sustenta.

a vida não muda de uma vez. ela vai se ajustando aos poucos. em pequenas percepções, em mudanças discretas, em formas diferentes de lidar com o mesmo cenário de sempre.

hoje foi um dia comum. mas eu não fui exatamente o mesmo dentro dele.


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