dia 118/365.



eu acho que existe uma lei cósmica que ninguém escreveu ainda, mas que todo mundo conhece de experiência própria: quando alguma coisa ruim resolve acontecer, ela traz amigos.

ela não vem sozinha. ela não respeita seu calendário, não verifica se você está livre, não pergunta se aquele dia ali é um bom momento. ela chega, e aí, num gesto quase educado de quem foi mal acostumada, ela convida mais duas ou três coisas pra acompanhar. tudo ao mesmo tempo. tudo na mesma janela de horas. tudo decidindo, em uma assembleia que aconteceu sem o seu conhecimento, que aquele dia específico ali ia ser inesquecível.

hoje foi um desses dias.

eu não vou entrar em detalhes, nem é o caso. mas posso dizer que em algum momento, num intervalo de algumas horas, a vida resolveu testar se eu ainda funcionava sob pressão simultânea. três frentes diferentes, cada uma com seu protagonismo, cada uma com seu nível de urgência, cada uma exigindo atenção integral como se as outras duas não existissem.

e eu, sentado no meio disso, fazendo o que dava pra fazer, tive um pensamento absolutamente inadequado.

eu quase ri.

não foi uma risada. foi quase uma. aquela que começa lá no fundo, que nasce do completo absurdo da situação, que tem um pouco de incredulidade e um pouco de exaustão, e que se você não segura ela vira um surto. porque em algum momento, quando o terceiro problema chega na mesma hora dos outros dois, a sua única reação racional é uma reação irracional. é olhar pra cima e pensar: sério mesmo? agora?

e tem alguma coisa nesse riso que me chamou atenção depois.

porque se você for analisar friamente, não tem motivo nenhum pra rir. cada um daqueles problemas, isolado, mereceria um dia inteiro de preocupação. mas quando eles vêm juntos, alguma coisa estranha acontece. é como se o cérebro, diante de tanto absurdo concentrado, abrisse mão de processar com seriedade e escolhesse outra rota. uma rota mais primitiva, mais corporal, quase animal. o riso de sobrevivência.

eu acho que a gente subestima muito esse mecanismo.

a gente foi educado a achar que os momentos difíceis pedem postura. cara séria. concentração total. resposta à altura. e tudo bem, tem horas que pedem mesmo. mas tem horas em que a única atitude saudável é reconhecer que a situação é objetivamente cômica. não cômica de engraçada, mas cômica de absurda. cômica como a vida costuma ser quando para de seguir o roteiro que você imaginou pra ela.

porque a verdade é que a vida não respeita ordem nenhuma.

a gente acha que ela é uma fila organizada de eventos, em que um problema termina e outro começa, com um intervalinho civilizado entre eles pra você respirar e se preparar. mas ela não é. ela é mais parecida com uma feira livre. tudo acontecendo ao mesmo tempo, em volumes diferentes, com você no meio tentando não pisar em ninguém. e em algum momento, no meio do caos, alguém grita uma promoção de tomate e você percebe que ainda precisa fazer compra.

é assim. e eu acho que demorou pra eu entender isso.

por muito tempo eu encarava esses dias com revolta. com aquela sensação de injustiça quase infantil, do tipo “mas justo agora?”. como se existisse um momento certo pros problemas aparecerem, e o universo, por algum descuido administrativo, tivesse errado a hora de soltar os meus. e essa revolta me consumia mais do que os problemas em si. porque os problemas, na maioria das vezes, têm solução. já o sentimento de estar sendo perseguido pela vida, esse não tem. esse só drena.

hoje, sentado no meio do caos, eu não senti revolta.

senti uma coisa que eu acho mais útil. um reconhecimento. uma aceitação meio cansada, meio divertida, de que isso aqui faz parte do pacote. não é exceção. é regra. e quanto mais cedo a gente para de tratar como exceção, mais energia sobra pra realmente lidar com o que aparece.

porque o problema do excesso não é o excesso em si. é a expectativa que a gente tinha de que não fosse acontecer. é a sensação de que a vida tinha um contrato implícito de ser mais leve, mais espaçada, mais respeitosa com seus limites. e quando ela quebra esse contrato imaginário, a gente sofre duas vezes. uma pela situação real, outra pela diferença entre o que está acontecendo e o que a gente achava que devia acontecer.

talvez o segredo, se é que existe um, seja parar de assinar esse contrato.

aceitar que dias assim vão existir. que vão ser cumulativos. que vão chegar sem aviso, com tudo junto, no momento mais inconveniente possível. e que a única coisa que a gente realmente controla é o jeito como atravessa.

e o riso, eu descobri, é uma das melhores travessias.

não o riso de quem desistiu, o de quem está em negação. é outro. é o riso de quem reconhece o absurdo e escolhe não se afundar nele. é uma forma silenciosa de dizer: você não vai me derrubar com isso. eu posso até cair, mas vou cair achando graça.

tem uma sabedoria nisso que eu não sei explicar direito. talvez por isso as pessoas mais fortes que eu conheço sejam, quase sempre, as que conseguem rir nas piores horas. não por insensibilidade. pelo contrário. por sensibilidade demais. por entenderem, em algum nível profundo, que a vida é grande demais pra ser levada inteira a sério.

eu termino esse dia cansado. resolvi o que dava pra resolver. o que não deu, vai ficar pra amanhã, pra depois, pra quando der. e tudo bem.

mas me peguei pensando, antes de sentar pra escrever, que talvez essa seja uma das maiores habilidades que a gente pode desenvolver na vida adulta.

não a de evitar os dias caóticos. a de chegar inteiro do outro lado deles. e, se possível, com um pouco de senso de humor ainda intacto.

porque os problemas vão. eles sempre vão. mas a forma como você atravessou eles fica. e essa, no fundo, é a única coisa que constrói quem você está se tornando.


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