dia 122/365.



teve gente em casa.

a alê passou o final de semana com a gente, e tem uma coisa que eu reparei e que vale registrar: casa com movimento tem uma luz diferente. não é só barulho a mais, não é só pessoas circulando. é algo que muda a textura do ambiente. uma casa que recebe respira de outro jeito. e isso me lembra o quanto, no automático da vida, a gente esquece de convidar. de receber. de quebrar a rotina nem que seja com uma pessoa a mais no almoço de sábado.

a gente fez coisas que eu normalmente não faço. almoçamos no clube. passeamos pelo centro. coisas que parecem banais, mas que não são, porque elas exigem que você saia do lugar onde sempre está. e sair do lugar, mesmo que seja por algumas horas, mesmo que seja pra fazer nada de mais, já é uma forma de respiro.

mas o que ficou comigo de verdade foi a noite.

a alê fez o jantar. estávamos eu, o john, minha mãe e ela. quatro pessoas em torno de uma mesa, sem pressa, sem celular gritando, sem televisão de fundo competindo por atenção. comendo, conversando, rindo. e eu fiquei pensando o quanto isso virou raro.

porque eu fui criado assim. em casa, refeição era à mesa. tinha horário. tinha presença. ninguém comia em pé, ninguém comia no quarto, ninguém comia no sofá com o prato no colo. existia um ritual silencioso em torno do ato de comer junto, e esse ritual ensinava algumas coisas que eu acho que a gente não percebe enquanto está sendo ensinado. ensinava que comer não é só nutrir o corpo. é uma das poucas oportunidades reais que existem, no meio de um dia atarefado, pra estar com quem está perto de você.

e olhando agora, com algum afastamento, eu vejo que essa cultura está sumindo.

a vida virou rápida. a comida virou rápida. as relações também. tem comida que chega na sua porta em vinte minutos, tem refeição que se resolve na frente do computador entre dois e-mails, tem janta que vira um tupperware reaquecido às onze da noite porque o dia foi muito longo e ninguém tinha mais energia pra sentar junto. e a gente foi normalizando isso. foi aceitando que comer sozinho e rápido é o jeito moderno de funcionar. é até elogiado, em algumas culturas profissionais. quem para pra almoçar é visto como quem está perdendo tempo.

mas perder tempo é exatamente o ponto.

não tem outro jeito. não tem versão otimizada disso. uma refeição compartilhada, de verdade, exige tempo. exige presença. exige que você desligue uma parte do mundo enquanto come, e que se permita estar inteiro ali, naquele pedaço pequeno de espaço delimitado por quatro cadeiras e alguns pratos.

e o que acontece nesse espaço é diferente de qualquer outro encontro.

porque quando você está à mesa, alguma coisa se solta. as conversas se desviam. ninguém planeja muito o que vai dizer. o assunto vai indo, vai voltando, vai parar em lugares completamente improváveis. alguém lembra de uma história antiga, alguém faz uma piada que ninguém entende, alguém serve mais comida sem precisar pedir. tem um ritmo próprio que não se reproduz em nenhum outro tipo de encontro.

eu não sei se as pessoas mais novas estão tendo isso. eu não sei se elas estão criando memórias assim. é uma preocupação real, mesmo que pareça pequena. porque essas memórias, eu posso falar com alguma autoridade agora, depois de tudo que eu vivi, são as que sustentam a gente nas piores horas. não os almoços extraordinários. não os jantares em restaurantes caros. são os jantares simples, em casa, com gente conhecida, comida feita sem grande pretensão, conversa que começa em uma coisa e termina em outra.

esses jantares constroem um lastro afetivo que vai te segurar quando precisar. e cada vez que você troca um deles por uma refeição apressada na frente do celular, você está enfraquecendo um pouco essa rede.

eu fico feliz de ter sido criado em uma casa que valorizava isso. fico mais feliz ainda de ter a chance, hoje, de manter isso vivo na minha vida adulta. com o john sempre comigo, com a minha mãe presente, com amigos como a alê que aceitam atravessar a estrada pra passar um final de semana e cozinhar pra gente.

isso não é luxo. isso é estrutura emocional.

e talvez seja isso que o slow food, no fundo, sempre tentou dizer. não é só sobre comida. é sobre respeitar o tempo das coisas. é sobre entender que existem dimensões da vida que não cabem em rotina otimizada. que existem coisas que a pressa apaga e que, depois de apagadas, são muito difíceis de recuperar.

um sábado bom, no fim, é isso.

uma casa com movimento, gente em volta da mesa, comida feita com calma, conversa que não tem hora pra acabar.

simples. quase ordinário. mas exatamente o tipo de coisa que sustenta uma vida inteira.


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