dia 160/365.



terça-feira. e eu continuo tendo vários motivos para surtar, mas ainda estou conseguindo me manter tecnicamente pleno. talvez só por fora. porque por dentro eu esteja gritando desesperado. brincadeiras à parte, eu sigo calmo. não o calmo de quem está na praia de férias, mas com todo o cenário à minha volta eu acho que tenho feito um bom trabalho.

mas empilhar contas em atraso, eu preciso confessar, tem sim me preocupado.

e isso me leva a uma palavra.

e vou aproveitar pra contar outra coisa: esses dias eu pedi pra uma ia dar uma lida e uma analisada no que eu tenho escrito. um palpite externo, técnico, sem sentimento envolvido. e ela disse que eu tenho repetido muito uma palavra. e é justamente essa palavra, e esse tema, que eu quero usar pra falar sobre o dia de hoje.

sim, de novo. ela mesma.

a fé.

porque no fundo eu sei que esse é um dos meus maiores dilemas. um dos meus maiores trabalhos. e é algo que eu me cobro sim. porque se eu estou aqui, ficando realmente preocupado com a situação, eu sinto que de alguma forma a minha fé tem falhado. ainda que eu tenha ciência de que não posso simplesmente sentar e achar que tudo vai se resolver. as coisas não são assim. mas eu sinto uma preocupação talvez de quem realmente não acredita que as coisas vão se resolver.

e aí eu fico com essa pergunta que não sai da cabeça.

se eu tenho fé de verdade, por que a preocupação bate tão forte? se eu acredito, de verdade, que deus cuida, que as coisas se resolvem, que o caminho existe mesmo quando eu não consigo enxergar, por que o peito aperta? por que eu refaço os mesmos cálculos várias vezes como se o resultado fosse mudar?

não muda, a propósito. mas eu tento.

e aí vem a autocrítica. aquela voz interna que diz: você fala de fé em todo texto e olha o estado em que você está. se você acreditasse mesmo, não estaria assim. e essa voz é cruel, porque ela usa a sua própria fé como argumento contra você. como se preocupação e fé fossem incompatíveis. como se sentir o peso das coisas fosse prova de que você não acredita de verdade.

mas eu fui ficando com isso ao longo do dia. e fui chegando numa conclusão que ainda não sei se é sabedoria ou só jeito que eu encontrei de me defender da culpa.

talvez fé não seja ausência de preocupação. talvez fé seja continuar mesmo com ela.

porque fé que só funciona quando está fácil não é bem fé. é conforto. é gratidão quando as coisas dão certo. e gratidão é linda, mas não é a mesma coisa. fé de verdade, eu acho, é a que aparece justamente quando a lógica diz que não vai dar. quando os números não fecham, quando o mês está apertado, quando você olha pro cenário e não enxerga saída. e mesmo assim você acredita. não porque tem prova. porque escolhe.

isso é mais difícil do que parece. muito mais.

porque escolher acreditar quando tudo aponta o contrário vai contra todos os instintos de sobrevivência que a gente tem. o cérebro quer certeza. quer controle. quer saber o que vem a seguir. e fé é exatamente o oposto disso. é soltar o controle. é confiar num processo que você não gerencia. é aceitar que existe uma ordem maior do que a sua planilha.

e eu luto com isso. todo dia. não só nos dias difíceis. nos dias fáceis também, só que nesses eu luto menos e por isso finjo que aprendi.

cento e sessenta dias escrevendo sobre fé. e ainda estou aprendendo o que ela significa na prática, quando o mês não fecha e a preocupação senta do meu lado sem ser convidada.

você também sente isso às vezes?


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