
dizem que a minha vida daria uma novela. eu dou risada, disfarço, falo “imagina, até parece”, mas no fundo eu imagino as câmeras me seguindo ao longo do dia e pensando como eu explicaria metade do que acontece pra uma audiência. porque, de fato, a minha vida é um pouco… aleatória. aliás, esse é um adjetivo que eu já escutei mais vezes do que eu gostaria. que eu sou uma pessoa totalmente aleatória.
e o dia 162 não decepcionou.
começou de manhã, com o john tirando água de dentro do próprio carro com um balde. não uma canequinha, como na lendária história do conversível da minha mãe subindo a serra. um balde de verdade. o carro estava inundado por dentro, sem explicação razoável, porque choveu muito durante a noite do lado de fora mas aparentemente também choveu muito do lado de dentro. de onde veio a água? não sabemos. alguma calha entupida, alguma lei da física que eu não aprendi, algum mistério que o universo decidiu não explicar.
eu ria de uma maneira completamente descontrolada enquanto gravava. era muita água. era absurdo. era exatamente o tipo de coisa que não tem explicação mas que acontece na minha vida com uma regularidade que já não me surpreende mais.
mas o dia fechou com chave de ouro.
perto da minha casa tem uma farmácia. não é de bairro, é de rede, grande. e eu sou um frequentador assíduo. muito mais assíduo do que eu acho que seria saudável, mas entre enxaqueca, histórico médico da família e por aí vai, não vamos ficar aqui discutindo prontuário. o ponto é que eu e o john entramos quase no horário de fechar, já pedindo desculpa pelo horário, quando eu escuto:
mas é ele mesmo. o menino dos textos. ele que eu precisava.
eu gelei.
o novo gerente da unidade tinha virado o monitor na minha direção antes mesmo de eu processar o que estava acontecendo. precisava de uma carta de boas vindas pra uma funcionária nova. eu ri, de nervoso. porque me pegar de surpresa pra escrever é a pior ideia possível. se você faz isso comigo eu esqueço até que sou alfabetizado.
depois de tremer um pouco e tentar lembrar como se anda, dei a volta no balcão e coloquei o cérebro pra trabalhar. precisei apagar o que ele tinha escrito, porque uma coisa é escrever do zero e outra é partir do ponto de alguém. e eu sou péssimo nisso. terminei com a certeza de que ele ia odiar, me achar uma fraude, me mandar embora. porque autoestima obviamente nunca foi meu forte.
ele adorou. de verdade.
eu ainda brinquei que se eu deixar cair meu currículo na porta da farmácia eu arrumo emprego. falei brincando mas eu acho que é verdade.
e depois fiquei pensando. porque eu não narro mais esse tipo de coisa no diário? por que eu fico tentando ser um quase filósofo moderno metido a uma tentativa fracassada de pensador cult, quando a minha vida, do balde no carro ao gerente da farmácia, já é roteiro pronto?
se a minha vida realmente parece uma novela, talvez seja hora de começar a escrever uns roteiros.
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