
acordamos cedo num sábado, o que já diz muita coisa sobre o nível de organização que a semana exigiu. eu, o john e minha mãe fomos ao centro resolver algumas coisas, comprar presente porque no dia seguinte tinha aniversário. o tipo de sábado de manhã que parece produtivo mas que você não contaria pra ninguém porque não tem nada de especial.
de noite, brasil na copa do mundo.
primeiro jogo. marrocos. dezenove horas. e eu estava lá, presente, patriótico na medida do socialmente aceitável.
no primeiro tempo eu ainda tive paciência. me esforcei. fiz o que qualquer pessoa minimamente comprometida com o contrato social brasileiro faz: fingi interesse com uma convicção razoável. comentei alguma coisa sobre a bola, acho. não lembro o quê. mas comentei.
no segundo tempo eu estava no celular jogando.
e o john? o john desceu com o notebook, sentou na casa da minha mãe e ficou trabalhando o jogo inteiro. nem olhou pra televisão uma vez. nem uma.
e eu fico pensando no quanto a gente carrega essa coisa de ter que gostar de futebol no brasil. não é uma pressão explícita, ninguém chega e fala que você é obrigado. mas existe. existe naquele olhar de estranhamento quando você fala que não acompanha. no “mas como assim?” que vem disfarçado de pergunta mas é julgamento. no silêncio constrangedor quando todo mundo está comentando a jogada e você não tem nada a acrescentar porque, honestamente, você estava no celular.
no brasil, não gostar de futebol é quase uma questão de identidade. como se você tivesse optado por não falar português. como se faltasse alguma coisa fundamental em você.
e eu já tentei gostar. juro que tentei. já assisti jogo, já entrei no clima, já fiz aquela coisa de torcer um pouco mais alto pra convencer a mim mesmo de que estava me divertindo. não funciona. não é minha praia. nunca foi. e se tinha algum traço desse litoral, morreu no 7×1.
e tem uma coisa interessante nessa percepção, que eu acho que vai além do futebol. saber o que não é você é tão importante quanto saber o que é. talvez mais, até. porque o mundo vai insistir o tempo todo em te dizer o que você deveria gostar, o que deveria te emocionar, o que deveria fazer você largar tudo e gritar pro céu. e quando você conhece bem o que não ressoa em você, fica mais fácil não gastar energia fingindo que ressoa.
eu não gosto de futebol. o john não gosta de futebol. a gente estava num jogo do brasil na copa do mundo, um evento que paralisa o país, e um estava no celular e o outro no notebook.
e sabe o que é mais honesto do que fingir que estava assistindo?
exatamente isso.
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