dia 166/365.



choveu a noite inteira. e essa chuva trouxe uma frente fria de verdade, do tipo que avisa que ainda vai piorar antes de melhorar. e eu, que já sofro com frio em circunstâncias normais, comecei o dia com aquela sensação de quem só queria voltar pra cama e negociar o resto do mundo de lá.

mas tinha jantar pra organizar.

a kayru, minha cunhada, faz aniversário, e a gente tentou marcar um jantar com a turma de sexta, os amigos de sempre, pra celebrar. com a família, a gente meio que desencanou. nem a própria kayru queria fazer muita festa, então ia ser mais um jantar entre amigos do que evento de família.

parece simples. não foi. juntar agenda de gente adulta é sempre um quebra-cabeça, e por algum motivo essa tarefa específica sempre cai pra mim e pro john. a gente vira o ministério de logística afetiva da turma. tenta uma data, alguém não pode. tenta outra, outro não pode.

e eu, sendo absolutamente sincero aqui, sou preguiçoso por natureza. pra tudo. inclusive pra organizar jantar de aniversário de cunhada que eu amo. tanto que, no fim, o jantar nem aconteceu hoje como planejado. ou melhor, aconteceu mais ou menos, mas eu nem compareci. ficou tudo pra quarta-feira, que é o dia certo do aniversário dela.

mas isso é diferente de cuidar de quem eu amo. cuidar eu faço sem pensar duas vezes, sem cansar, sem questionar. a preguiça é minha em logística, em organização, em coisas desse tipo. nessa outra frente, eu simplesmente resolvo.

e falando do john.

ele começou a sentir dor nas pernas ontem. hoje a dor continuou, e segundo ele, de um jeito mais agudo do que o normal. e eu fiquei de olho. não em pânico, não criando cenário catastrófico antes da hora. mas atento. porque o corpo dele tem uma história que ele prefere não revisitar em detalhe, e que me ensinou, com o tempo, a não ignorar quando ele reclama de dor na perna.

eu não vou entrar em detalhe. é dele, não é meu pra expor. mas existe um motivo real pra eu prestar atenção quando ele fala que está doendo. não é exagero meu, não é ansiedade fabricando problema. é cuidado informado por experiência.

e fico ali, no meio do dia, entre adiar o jantar pra quarta e observar o jeito que ele se move, se senta, se levanta. tentando perceber se é só um dia ruim do corpo ou se é algo que merece mais atenção.

ainda não estou preocupado de verdade. mas estou alerta. e tem uma diferença importante entre essas duas coisas. preocupação paralisa. alerta cuida.

e eu escolho cuidar.

porque, no fim, é isso que eu faço por ele. sem cansar, sem questionar, sem precisar de motivo além do óbvio: eu amo esse homem, e cuidar dele nunca vai ser fardo. é só o que eu sou, na parte de mim que importa de verdade.

mesmo com a chuva, com o frio, com a preguiça natural querendo me convencer a ficar parado pra tudo, menos pra isso.


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