dia 167/365.



o frio continua. pior, até. com aquele clima de chuva que não decide se cai ou só ameaça, mas que deixa o ar pesado de qualquer jeito.

e voltou uma goteira.

quem acompanha esse diário desde o início vai lembrar das goteiras. lá no começo, quando a casa decidiu virar um sistema hidráulico improvisado e eu dei nome pra cada uma delas, porque era a única forma de tornar aquilo suportável. dar nome às coisas que insistem em ficar é um jeito de fazer as pazes com elas.

essa nova, em cima da cama, eu não nomeei.

e foi de propósito. porque dar nome é também, de alguma forma, aceitar que ela ficou. e eu não quero aceitar isso. eu quero que ela seja passageira, rápida, um aviso sem continuação. então ela fica sem nome por enquanto. uma espécie de recusa silenciosa.

mas, com nome ou sem nome, ela pingou bastante ontem à noite, bem em cima da cama. e quem resolveu toda a logística disso foi o próprio john. trocou colchão, trocou cama, reorganizou tudo pro quarto de hóspedes, mesmo com a dor que ele estava sentindo. eu fiquei impressionado, sinceramente. porque ele estava com a perna incomodando e ainda assim arrumou aquilo tudo sem reclamar muito.

e foi só depois disso, já com tudo resolvido, que ele tomou os remédios. uma quantidade que eu sempre acho exagerada, mas que ele toma com a convicção de quem conhece o próprio corpo melhor do que eu jamais vou conhecer. eu questiono por dentro, mas não questiono em voz alta. porque ele sabe o que está fazendo. eu acho. e mesmo que eu não tivesse certeza absoluta disso, não é uma decisão que me cabe tomar por ele.

a dor diminuiu, pelo menos. isso foi bom. mas o resultado foi ele passar o resto do dia inteiro bêbado de sono. literalmente bêbado, no jeito de andar, de falar, de existir. chegou em casa e só dormiu. não jantou direito, não conversou direito, não fez nada direito além de dormir.

e eu fiquei ali, sem poder fazer muita coisa, só observando. porque tem coisas que cuidado não resolve na hora. só o tempo resolve. só o remédio fazendo o que precisa fazer, devagar, enquanto o corpo descansa o suficiente pra absorver.

espero que ele acorde melhor amanhã.

sem cama, sem quarto, com goteira sem nome pingando em algum canto da casa. mas melhor.


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