dia 168/365.



dia da kayru. ou pelo menos devia ser inteiramente dela.

a gente tentou organizar um jantar, depois um almoço, depois ajustamos pra um jantar mais simples na casa da minha mãe. ela ia levar um bolo, a gente ia se reunir, coisa rápida, só nós. e no meio disso teve aquela dança de mensagem que não chega, recado que se perde, ela mandando recado pra eu cobrar o john que não respondeu, eu tentando falar com ela que já estava almoçando quando finalmente consegui. aquela logística cansativa de organizar gente adulta com vida própria. mas resolvido. jantar simples, à noite, na casa da minha mãe.

antes do curso de quarta, eu liguei pra eulina. ela dá o curso pra gente, é a dirigente e é uma amiga querida que entende esse universo espiritual de um jeito que sempre me acalma. fiquei mais de uma hora no telefone com ela. e ela disse que ia pedir, em espírito, que o dr. bezerra de menezes e a equipe médica e os enfermeiros do espaço dessem uma atenção especial ao john.

eu não sabia, naquele momento, o quanto esse pedido ia fazer sentido horas depois.

porque a gente foi pro curso mesmo assim. eu, o john e a nica. eu já decidi, há um tempo, que não quero mais faltar. eu gosto. faz bem. e foi um dia friíssimo, dos mais frios que eu lembro recentemente, eu estava me congelando todo, mas fomos mesmo assim.

e foi lá que o john passou mal de verdade.

ele saiu no meio do curso falando que estava se sentindo mal, perto de desmaiar. eu fiquei com ele do lado de fora, achando que o ar gelado pudesse ajudar. não ajudou. a nica tentou ver a pressão dele, porque parecia ser esse o problema. e a gente decidiu não arriscar. saímos do curso e levamos ele direto pra casa.

ele foi pra cama assim que chegou. eu subi com ele. nem passei na casa da minha mãe, mesmo sabendo que era aniversário da kayru, mesmo sabendo que tinha bolo, conversa, celebração esperando. pedi só pra nica avisar que eu não ia conseguir ir.

porque prioridade é prioridade. e a minha, sempre, vai ser ele.

a kayru me ligou mais tarde. dei os parabéns por telefone, com aquela sensação estranha de quem está dividido entre dois cuidados ao mesmo tempo. queria estar lá. mas não tinha como estar em dois lugares, e o lugar que importava de verdade, naquele momento, era ao lado da cama dele.

e eu fiquei pensando no pedido que a eulina tinha feito antes mesmo de tudo isso acontecer. como se, de algum jeito, alguma coisa já soubesse que ia precisar.

fiquei ali, deitado do lado dele, vigilante. não em pânico, mas atento de um jeito que não desliga fácil. esperando o sono fazer o trabalho que o corpo dele precisava. esperando amanhã trazer notícia melhor.

a kayru entendeu. claro que entendeu. ela sabe, como todo mundo na minha família sabe, que existe uma ordem de prioridade que não se discute. não porque os outros importam menos. mas porque tem alguém que, pra mim, vai sempre estar no topo dessa lista.

e hoje era a vez dele.


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