dia 169/365.



de madrugada ele acordou.

eu escutei. não sei se eu estava de fato dormindo ou só fingindo que estava, mas eu escutei. ele se mexeu, levantou, foi comer alguma coisa. voltou dizendo que estava um pouco melhor mas ainda muito sonolento. a gente voltou a dormir.

e de manhã ele disse que queria ir trabalhar.

eu olhei pra ele. ele estava falando sério. disse que trabalhar distrai, que ajuda, que ficar em casa parado seria pior. e eu conheço esse argumento porque conheço ele. tem gente que cura deitado. o john cura em movimento. é o tipo de pessoa que precisa de ocupação pra não ficar dentro da própria cabeça, pra não transformar o desconforto em espiral. e quem sou eu pra contestar o que funciona pra ele?

então ele foi.

e eu fiquei ali com aquela sensação específica de quando a crise passa mas você ainda não soltou completamente. é como segurar o fôlego por muito tempo e não conseguir largar de uma vez quando finalmente dá. o corpo continua em alerta mesmo quando o perigo já foi. a adrenalina ainda está lá, esperando uma ameaça que não vai vir mais.

ontem eu estava vigilante. hoje eu estava aliviado, mas ainda de olho. ainda checando o celular com uma frequência ligeiramente acima do normal. ainda esperando uma mensagem que confirmasse que estava tudo bem do lado de lá.

e ela veio. ele foi, trabalhou, se distraiu, ficou bem.

às vezes eu fico pensando no quanto a gente subestima o autoconhecimento das pessoas que ama. a gente quer proteger, quer cuidar, quer tomar a decisão por elas. mas elas sabem coisas sobre si mesmas que a gente não vai saber nunca. o john sabe como o próprio corpo funciona de um jeito que eu não vou aprender nem em vinte anos de convivência. ele já passou por coisas que ensinam a ler os próprios sinais com uma precisão que impressiona.

e ele estava certo.

trabalhar ajudou. ele voltou melhor do que foi. e eu respirei, finalmente, aquela respiração funda de quem pode, agora sim, soltar.


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