
abriu o sol.
depois de dias cinzas, de chuva, de frio que parecia ter decidido ficar pra sempre, o sol apareceu. e eu recebi aquilo como um presente desproporcional, do jeito que a gente recebe sol quando passou tempo demais sem ver.
o tempo tem estado estranho. pra um inverno que tecnicamente já chegou, ou quase chegou, não tem feito o frio que eu esperava. e que eu temia. ontem estava gelado. hoje já estava menos. e eu, que sofro com frio de um jeito que as pessoas ainda acham exagerado mas que é completamente real, meus pés estão sempre gelados e eu passo frio em qualquer lugar, até dentro de casa.
o john ficou em casa.
não por escolha própria, convém deixar claro. ele faz questão de avisar a todo mundo, com aquela expressão de quem está sendo injustiçado, que só está parado porque eu não deixo ele se mexer. que se fosse por ele já estava fazendo um milhão de coisas. que ele está ótimo, completamente recuperado, e que minha vigilância é excessiva.
eu ouço tudo isso e continuo não deixando.
porque eu conheço ele. e sei que “estou ótimo” do john e “estou ótimo” de verdade às vezes têm uma distância considerável entre eles. então ele ficou. sentado. em casa. reclamando discretamente da minha teimosia enquanto eu fingia não ouvir.
e de noite, brasil na copa de novo.
dessa vez contra uma seleção pequena, que eu nem lembro agora qual era. o brasil ganhou uns 3×0, teve uns dois gols anulados, a seleção inteira fez o que se esperava que fizesse. foi o tipo de jogo que você poderia ter não assistido e ficado com exatamente a mesma quantidade de informação no dia seguinte.
mas a gente assistiu. ou pelo menos estava presente enquanto o jogo acontecia na televisão.
o john passou o jogo com o notebook no colo, trabalhando. eu passei o jogo no celular, jogando. o brasil marcava um gol, alguém na televisão gritava, a gente levantava a cabeça por um segundo, confirmava que havia acontecido algo relevante, e voltava cada um pro seu.
tem uma certa poesia nisso, na verdade. o país inteiro parado, de olho no jogo, e a gente aqui, lado a lado no sofá, completamente alheios ao clima nacional, fazendo exatamente o que quisemos desde o começo.
eu não gosto de futebol. o john não gosta de futebol. mas a gente estava junto, no mesmo sofá, com o mesmo jogo de fundo, e isso de alguma forma foi suficiente pra fazer daquele uma boa sexta à noite.
o sol tinha aparecido. o john estava em casa. o brasil tinha ganho de alguém.
pra mim, o placar mais importante do dia era outro.
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