dia 171/365.



acordei com dor de cabeça.

não a dor aguda de enxaqueca declarada, mas aquela outra. a que fica. a que não te derruba mas não te larga. que faz você passar o dia com a cara fechada sem conseguir explicar direito por que, porque tecnicamente não está tão ruim, mas está ruim o suficiente pra colorir tudo de cinza.

almoçamos no clube. fui, comi, estive lá. mas estava lá do jeito que a gente está nas coisas quando não está bem, de corpo presente e cabeça em outro lugar.

de tarde eu dormi. tentativa de resetar, de dar ao corpo o que ele estava pedindo. e aí vieram os pesadelos.

vários. um atrás do outro, daqueles que você acorda no meio e tenta fugir de volta pro sono e o sono te devolve pro mesmo lugar. e um ficou. um cara me perseguia. sem contexto, sem história, sem motivo aparente, do jeito que os pesadelos funcionam quando não precisam explicar nada pra ninguém. eu me escondia no escuro. ele veio com a lanterna do celular, varrendo o espaço, me procurando. e quando a luz me achou, eu acordei.

fiquei ali um segundo, no meio do quarto, com aquela desorientação de quem não sabe bem onde está no tempo.

e pensei: tem algo acontecendo.

não sei explicar exatamente o quê. mas quando a enxaqueca volta, o john fica com dor, e os pesadelos chegam todos na mesma semana, alguma coisa em mim começa a fazer perguntas que vão além do físico. eu sou espírita. eu acredito que existe mais do que o que se vê. e tem momentos em que o corpo é o primeiro a sentir o que o ambiente está carregando, uma energia pesada, uma inveja, alguma coisa direcionada que a gente nem sempre consegue nomear mas que chega do mesmo jeito.

pode ser coincidência. pode ser só uma semana difícil. mas pode ser outra coisa também. e eu prefiro prestar atenção do que fingir que não senti.

a dor não passou depois do sono. melhorou um pouco, mas não passou.

de noite eu comprei kfc pra minha mãe. ela nunca tinha comido. e teve algo levemente cômico nisso, nessa ideia de apresentar frango empanado americano como distração afetiva num sábado de inverno paulistano. mas funcionou. ela gostou. eu gostei de ver ela gostar. não cozinhei, o que com dor teria sido complicado, e foi a decisão certa.

às vezes cuidar não precisa ser feito do zero. às vezes é só comprar o frango e sentar junto.

o dia terminou com a dor ainda presente, baixa mas presente. o pesadelo ficou na memória com aquela nitidez estranha que alguns sonhos têm, de parecerem mais reais do que deveriam.

e essa sensação de alerta que acordou junto comigo não foi embora com ele.

tem algo acontecendo. eu ainda não sei o quê. mas o corpo sabe antes da gente. sempre sabe.


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