
domingo. e o sol apareceu de novo.
depois de uma semana que oscilou entre frio pesado, chuva, pesadelo e dor de cabeça, o sol de domingo chegou com aquela cara de quem não deve nada e não quer saber de nenhum dos problemas da semana anterior. e eu decidi, por uma vez, fazer o mesmo.
a gente saiu pra andar pelo jardim.
eu moro numa chácara. terreno fino e comprido, que vai da rua da frente até a rua de trás, com espaço que a vida urbana normalmente não permite. tem jardim, tem árvores, tem pontos de sol e pontos de sombra que você escolhe dependendo do humor e da temperatura. tem muito espaço. mais do que eu uso, na maior parte do tempo.
e é exatamente isso que me chamou atenção hoje.
eu moro aqui há anos. esse espaço todo existe aqui há anos. e quantas vezes eu realmente parei pra andar por ele? pra sentar ao sol sem estar resolvendo nada, sem o celular na mão como prioridade, sem estar de passagem pra algum lugar? pouquíssimas, se eu for honesto. a maior parte do tempo eu passo dentro de casa, dentro do carro, dentro do trabalho. o jardim existe do lado de fora e eu existo do lado de dentro, e os dois lados raramente se encontram de propósito.
tem um privilégio enorme em ter esse espaço. eu sei disso. sei especialmente porque conheço gente que mora em apartamento pequeno, em cidade grande, sem nenhum pedaço de terra pra chamar de seu, sem uma árvore que seja à vista da janela. e eu tenho tudo isso aqui, a poucos metros da minha porta, e passo a vida ignorando.
não por ingratidão. acho que é mais por hábito. por esse modo automático de existir que a vida adulta instala na gente sem pedir licença. você acorda, resolve, trabalha, come, dorme, repete. e o jardim fica lá, esperando, paciente, sem reclamar que você não apareceu.
hoje eu apareci.
sentamos ao sol, o john e eu, numa daquelas pausas que não têm pauta. sem nada pra resolver, sem lugar pra chegar. só o sol de inverno, que em são paulo tem essa qualidade específica de ser quente sem ser agressivo, aquele calor que você recebe com gratidão porque sabe que não vai durar.
e eu fiquei pensando no quanto a gente subestima o que tem perto. não só o jardim. tudo. a gente viaja o mundo atrás de experiências e às vezes a experiência estava aqui o tempo todo, esperando alguém parar por tempo suficiente pra perceber.
o sol de domingo num jardim que é meu mas que eu raramente visito.
foi suficiente pra fazer esse domingo valer.
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