dia 173/365.



hoje teve uma situação que eu não vou detalhar. não é o caso, não é o momento, e francamente não é o que eu quero levar desse dia pra frente.

mas ela me fez pensar numa coisa que eu carrego há um tempo e que nunca parei pra escrever direito.

por que algumas pessoas agem no caos como se o caos fosse o destino, e não o acidente?

deixa eu ser honesto primeiro sobre mim, porque acho que é o único jeito de falar sobre isso com alguma credibilidade. eu já perdi a razão. já saí do sério, já falei o que não devia, já machuquei pessoas com palavras ditas no calor de um momento em que eu não estava sendo nem um pouco o melhor de mim. já usei a raiva como argumento. já disse coisa com o intuito específico de doer, e doeu, e eu sabia que ia doer quando disse, e disse mesmo assim.

então eu não estou aqui em cima de nenhum pedestal.

mas tem uma diferença que eu fui aprendendo com o tempo, e que eu acho que separa quem erra de quem repete o erro eternamente sem nunca sair do lugar.

quando eu perco a razão, eu sei que perdi. tem uma parte de mim que, mesmo no meio da confusão, já está registrando o estrago. já está contando o custo. já está construindo o arrependimento que vai chegar depois, porque ele sempre chega. e quando chega, eu peço desculpa. não a desculpa performática, não aquela que começa com “me desculpa se você se sentiu assim”, que na prática não é desculpa nenhuma. a desculpa real, que reconhece o erro, que nomeia o que foi feito, que não tenta dividir a culpa no meio.

e mais do que isso: eu aprendo. ou pelo menos eu tento aprender. me policio. faço de tudo pra que da próxima vez eu chegue diferente na mesma situação.

e o que me intriga, de verdade, é quem não faz isso.

não estou falando de quem falha ocasionalmente, de quem teve um dia ruim, de quem estourou numa situação limite e depois se arrependeu. estou falando de quem parece habitar o caos como se fosse casa. de quem repete o mesmo padrão de explosão, de chilique, de palavra jogada pra machucar, sem nunca pausar pra perguntar o que aquilo está fazendo com as pessoas ao redor. e sem nunca, em nenhum momento, mudar.

e eu fico me perguntando o que acontece dentro de uma pessoa assim.

será que elas não percebem? será que percebem e não se importam? ou será que, em algum nível que eu ainda não entendo completamente, elas se alimentam disso? da reação que provocam, da atenção que o caos gera, da sensação de poder que vem de fazer alguém reagir?

porque tem gente que parece ficar maior no conflito. que expande no caos. que se organiza em torno da confusão como se fosse o único ambiente em que sabe existir. e quando a paz aparece, estranhamente, essas pessoas encontram um jeito de romper ela. como se o silêncio fosse insuportável. como se a ausência de drama fosse uma ameaça.

eu não sei diagnosticar isso. não sou psicólogo, não tenho como entrar na cabeça de ninguém. mas eu observo. e o que eu observo é que essas pessoas raramente estão felizes. raramente estão em paz. raramente têm relações que duram e que sustentam. porque é muito difícil construir qualquer coisa sólida em cima de um terreno que você mesmo fica sacudindo.

e tem uma coisa que eu sei, por experiência própria, sobre o caos que a gente gera.

ele sempre cobra. não imediatamente, às vezes. mas cobra. nas relações que enfraquecem aos poucos. nas pessoas que vão se afastando silenciosamente. no respeito que vai sendo corroído, gota a gota, cada vez que o padrão se repete. o caos não é de graça. ele tem um preço. e a conta vem, mais cedo ou mais tarde, pra todo mundo.

eu prefiro pagar menos. prefiro errar menos. prefiro, quando errar, reconhecer rápido e mudar de rota.

não porque sou melhor do que ninguém. porque eu sei o quanto custa o contrário.


Descubra mais sobre enrico pierro

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.


Comentários

Deixe um comentário