
tem dias no trabalho em que eu me sinto um mágico.
e nem é ilusionista, que seria mais fácil de explicar. ilusionista ilude. cria a aparência de algo que não existe. o mágico, não. o mágico precisa fazer a mágica acontecer de verdade. e o pior, ou o melhor, dependendo de como você olha: eu faço. eu entro num dia impossível e saio com alguma coisa que não deveria ter dado certo e deu. eu improviso onde não havia solução, eu encontro saída onde o corredor parecia fechado, eu apareço com resposta onde ninguém esperava que houvesse.
e isso tem um preço que eu demorei pra nomear.
porque quando você é o mágico, as pessoas param de perguntar como você faz. elas só esperam que você faça. e você faz. e faz de novo. e faz mais uma vez. e o truque vai ficando mais pesado a cada apresentação, mas o público não vê o esforço, só o resultado. e você, que sabe o quanto custou, vai acumulando esse peso num lugar que não mostra pra ninguém.
eu percebi uma coisa esses dias. eu parei.
não de trabalhar, não de resolver, não de aparecer quando precisam de mim. parei de outra coisa. parei com as redes sociais. parei com os vídeos. parei com os textos, com a presença, com tudo que é meu, que é autoral, que é a parte de mim que existe além do que eu entrego pro trabalho. ficou só o diário e a coluna. o mínimo. o resto sumiu.
e quando eu olhei pra isso com honestidade, eu entendi o que estava acontecendo.
eu estou me deixando me apagar.
não de uma vez, não dramaticamente. é um apagamento silencioso, gradual, daqueles que acontecem em câmera lenta e que você só percebe quando para e olha pra trás. cada semana sem postar, cada vídeo que ficou no rascunho, cada texto que eu comecei e não terminei, cada vez que eu disse “depois eu faço” e o depois não veio. vai somando. e de repente você olha pro espelho e a versão de você que cria, que aparece, que tem voz própria, está um pouco mais apagada do que estava no mês anterior.
e eu não posso deixar isso acontecer.
não porque tenho obrigação com ninguém. não porque seguidores cobram, não porque existe um contrato que assino toda semana com o algoritmo. mas porque criar é parte de quem eu sou. escrever, aparecer, ter voz, deixar rastro, isso não é acessório. é constitutivo. é parte da estrutura de quem eu sou, não um extra que eu adiciono quando sobra tempo.
quando eu paro de criar, eu paro de ser inteiramente eu.
e isso não é meu caminho. não é meu destino. não é nada do que eu quero, em absoluto.
e eu fico pensando em quantas pessoas estão fazendo a mesma coisa sem perceber. quantas estão se apagando devagar, em nome do trabalho, da sobrevivência, da exaustão que não passa, das obrigações que não param. quantas tinham uma voz, um projeto, uma coisa só sua, e foram deixando essa coisa ir sendo empurrada pra cada vez mais tarde, até virar uma memória de algo que um dia existiu.
você que está lendo isso e se reconhecendo: eu entendo. eu estou dentro disso também. não estou falando de fora, não estou dando conselho de quem já resolveu. estou aqui, no meio, percebendo que estava sumindo e escolhendo, agora, não sumir mais.
não precisa ser muito. não precisa ser perfeito. não precisa ser o retorno grandioso com tudo no lugar. pode ser uma linha. pode ser um vídeo curto. pode ser uma postagem imperfeita feita às pressas entre uma coisa e outra. pode ser esse diário, que existe todos os dias mesmo quando eu não tenho nada extraordinário pra contar.
o que não pode é o silêncio total. o que não pode é deixar que o peso do que você entrega pros outros consuma inteiramente o que você tem pra dar pra si mesmo.
mágico precisa fazer a mágica acontecer. mas mágico também precisa descansar, se alimentar, existir fora do palco.
e eu preciso lembrar que existe um palco que é só meu. e que ele não pode ficar vazio por muito tempo.
Deixe um comentário